sábado, 1 de março de 2014

Conversa de Contracapa #06

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

“- Achei que o senhor poderia estar curioso para descobrir se é mais inteligente que a pessoa que estou procurando.
- Então, por extensão, você pensa que é mais inteligente que eu, visto ter me apanhado.
- Não. Sei que não sou mais inteligente que o senhor.
- Então como me pegou, Will?
- O senhor estava em desvantagem.
- Qual?
- Paixão. E é louco.
- Você está muito bronzeado, Will.”


Diálogo entre Will Graham e Hannibal Lecter, extraído do livro Dragão Vermelho (HARRIS, pag. 81, 2013), presente também no filme de Brett Ratner.


Costuma-se dizer que o livro é sempre melhor que o filme. Com este tema em mente, há alguns meses, iniciamos uma série de três posts que analisam os diferentes resultados que uma adaptação de um livro para as telas pode render. Hoje, o último post da série aborda o caso de um livro cujas adaptações (tanto para televisão quanto para o cinema) aproveitaram melhor o universo criado pelo autor, amarraram as pontas soltas e tornaram um de seus personagens um dos mais lendários do cinema e da literatura. É o caso de “Dragão Vermelho”, de Thomas Harris, o primeiro livro a contar com a ilustre presença do Dr. Hannibal Lecter.


Na resenha que foi ao ar essa semana, comentei sobre a minha recente decepção com o livro tanto por ele não aproveitar o potencial dos personagens principais, quanto por deixar que certas coisas pareçam acontecer ao acaso.

Para exemplificar o que me refiro, cito Will Graham, cuja habilidade de dissecar cenas de crimes como nenhum outro investigador parece vir de uma inspiração divina ou de pura sorte, inclusive nos seus casos mais notórios (quando capturou os assassinos Garrett Jabob Hobbs - cujo confronto rendeu-lhe uma estadia no sanatório sobre a qual não sabemos nada, além de não sabermos nada sobre os crimes de Hobbs - e Hannibal Lecter, cujo confronto quase lhe custou a vida).

Quanto ao potencial mal explorado, comentei na resenha que Hannibal Lecter (por incrível que pareça!) não foi idealizado para ser um protagonista e por isso não ganha destaque no livro (tanto em termos de profundidade, quanto de aparições). É possível compreender esta escolha do autor, mas é impreterível lembrar que embora o personagem também apareça pouco no premiado “O Silêncio dos Inocentes”, seus meros 17 minutos em cena – condizentes com as páginas em que aparece no livro homônimo - foram responsáveis por transformá-lo em um dos maiores vilões de todos os tempos, além de tornar esta uma das interpretações mais icônicas do cinema.

Então como isso aconteceu se o livro parece largar sua história nas páginas, como se não tivesse vontade de contá-la para o leitor, transformando personagens ricos em meros investigadores de mais uma série de assassinatos que poderia ser como tantas outras já vistas na literatura?

Simples. Acontece porque as adaptações das obras de Thomas Harris souberam extrair desses personagens e desses eventos tudo que eles tinham para dar, ao invés de se contentar com os farelos deixados pelo autor em seus livros. Além de dar o devido destaque aos personagens, as adaptações procuraram justificar as relações entre eles além de explorar alguns eventos rapidamente citados.

A começar pelo filme “Dragão Vermelho” que mesmo sendo bastante fiel aos eventos do livro, à sequência da história e até mesmo aos diálogos, tem um roteiro muito melhor amarrado. Nas primeiras cenas fica estabelecido que Lecter e Will têm uma parceria que faz todo o sentido (e não que o psiquiatra surgiu no caminho do investigador por acaso) e quando o médico é desmascarado, isso ocorre porque o investigador juntou as peças do quebra-cabeça e chegou a uma conclusão lógica, não por um golpe de sorte. É assim que a relação dos personagens evolui para ser algo complexo, cheio de nuances, tornando um personagem verdadeiramente marcante para o outro.

E ressaltando o potencial desta relação, surgiu a série de TV “Hannibal”, criada por Bryan Fuller, cuja estréia em 2013 trouxe Mads Mikkelsen encarando a responsabilidade de dar vida a Lecter, em uma interpretação com características próprias que se diferencie da clássica premiada de Hopkins, e Hugh Dancy fazendo de Will Graham um personagem tão interessante quanto Lecter. A série não é a adaptação do livro “Dragão Vermelho” e sim inspirada nos personagens apresentados neste livro (inclusive com algumas pequenas alterações, como personagens masculinos no livro serem femininos na série). Isso porque Fuller tem planejadas sete temporadas de “Hannibal” e as três primeiras serão um desenvolvimento da relação entre Graham e Lecter para que só a quarta se dedique à história de “Dragão Vermelho” (consequentemente, a quinta a “O Silêncio dos Inocentes” e a sexta a “Hannibal”).

Com roteiros brilhantes, uma bela fotografia, um suspense tenso e cenas pouco recomendadas para quem tem estômago fraco, a série também explora a relação de outros personagens menores no livro com os protagonistas e ainda ressalta a quantidade de material dramático que Harris deixou em seus livros, usando o caso Garrett Jacob Hobbs como fio condutor de toda a primeira temporada ao explorar o caso (e o impacto dele em Will) ao máximo e, assim, justificar porque um treinado agente do FBI acabou no sanatório após matar um criminoso que estava prestes a matar a própria filha.

Eu gostaria de poder discorrer mais sobre como o filme e a série optaram por desenvolver o que acontece no livro e fazer as devidas comparações e análises, mas isso estenderia demais este texto. Mas são pelas razões aqui mencionadas que acredito que os livros de Thomas Harris ganharam muito com suas adaptações (em especial, claro, com “O Silêncio dos Inocentes”), pois elas salientaram o que de melhor tinham essas histórias e eliminaram o supérfluo. A partir delas, mesmo que esse primeiro livro não crie uma expectativa em torno de Lecter à altura do personagem, é impossível não ficarmos ansiosos para encontrá-lo, sentindo um frio na barriga, apenas ao lembrar do olhar frio, insano, calmo, penetrante e da voz metálica que o magnífico Anthony Hopkins usou ao lhe dar vida no cinema. Uma adição valiosíssima à obra original que qualquer autor só tem a agradecer.

12 comentários:

Ana Cristina disse...

É a primeira vez que eu leio que as adaptações foram melhor que o livro... Se o livro exatamente do jeito que você disse, faz sentido do porque as adaptações foram melhores. Eu ainda não conhecia, mas gostei da dica e fiquei com vontade de assistir. haha

Tenha um ótimo dia.
Beijos
http://garotaeseuslivros.blogspot.com.br/
http://www.youtube.com/user/anacrisinah <3

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Eu já queria ver os filmes, mas agora fiquei com vontade de ver a série também. Pelo que você fala fico sem vontade de ler os livros, mas talvez o faça algum dia para também poder comparar. Ótimo post.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Helana Ohara disse...

Oi Mari tudo bem?
Sim as adaptações são melhores que o livro, realmente, acho a mesma coisa, aliás acho isso de vários livros.
Primeiro por Hopkins sempre foi a cara de Hannibal, ele deu vida de fato ao personagem.
A série não fica para trás, o roteiro dela é ótimo e bem interessante, só resta saber como serão as demais temporadas e como vão trabalhar os livros, espero que fiquem interessantes.

Beijinhos ♥
In The Sky - Blog

Poison Girl disse...

Da última vez que eu assisti ao filme do Hannibal passei algum tempo tendo pesadelos, ficando um pouco assustada com o escuro... Sou uma pessoa que se impressionada com facilidade.

http://worldbehindmywall.fanzoom.net/

Ana Paula Barreto disse...

Este post foi um dos mais legais que li nos últimos tempos.
Não escondo de ninguém que o Hannibal é fascinante (tanto o do filme, quanto o da série). Adorei todos os filmes, ainda que uns sejam melhores do que outros. Mas minha paixão atual é a série mesmo. É tão diferente do que vemos por aí, que dá gosto. Todo o clima sombrio, os casos bem macabros e a loucura do Will, não me deixam nem piscar!
bjs

Mallu Marinho disse...

Nunca assisti Hannibal, mas todo mundo que eu conheço e assiste nem tem palavras pra descrever o quão perfeita a série consegue ser. E para ser sincera, desconhecia o livro. É difícil eu achar uma adaptação melhor que o livro, mas nesse caso, o mal aproveitamento dos personagens fez com que a situação invertesse. Bom... Acontece, né? As vezes livros simplesmente não conseguem despertar nossa imaginação ao ponto de se comparar ao que é possível assistir\ver.

Nardonio disse...

Que bom que essas adaptações caíram nas mãos das pessoas certas, pois, caso contrário, a "vaca iria pro brejo". São pouquíssimos os que embarcam nesses projetos, e conseguem extrair o que há de melhor na trama original. Assisti o filme, e tudo está perfeito: Direção, cenografia, e, principalmente Antony Hopkins, que é um caso a parte. Como ainda não assisti a série, não tem como opinar sobre ela, mas em breve o farei.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Laura Zardo disse...

Eu infelizmente não acompanho muitos filmes ou séries, podem me achar estranha, mas essa é a realidade, então, para mim fica difícil julgar, mas das poucas que vi, muitas adaptações não deram certo, assim, claro, como tiveram outras que deram certíssimo. Fico feliz que está tenha dado e fico triste pelo livro não ser tão bom assim, acho isso bem decepcionante.
Como este não é muito meu estilo, não pretendo assistir ou ler, mas quem sabe em uma próxima, hehe. =)

Janaira Oliveira disse...

é muito raro ler algo que indique que as adaptações foram melhores que os livros hahaha antes de assistir qualquer filme que tenha o livro, eu faço primeiro a leitura, não consigo assistir sem ler o livro até mesmo pelo motivo de "o livro ser melhor que o filme" que na maioria dos casos é verdade.

Não conhecia o livro ainda nem o filme mas vou procurar saber mais sobre os mesmos.

Giovanna Territsen disse...

Nossa, é bem raro isso acontecer. Quase sempre todo mundo prefere o livro. Mas eu acho que nesse caso específico do Hannibal, o que ajudou muito foram os atores. Atores simplesmente geniais como o Anthony Hopkins conseguem recriar o mundo do livro de uma maneira simplesmente magnifica.

Desbravadores de Livros disse...

Fico até admirada quando leio que uma adaptação é melhor do que o livro. Sério, eu fico: WHAT? Mas por quêeeeeee?
Não consigo entender e me indigno. Há as raras exceções, nesses casos. Porém, existem adaptações péssimas e, isso, é na grande maioria.
Falando em adaptação, estou super curiosa para assistir A menina que roubava livros.
Adorei essa coluna de vocês, bem diferente e divertida.

M&N | Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso Top Comentarista

Michelli Santos Prado disse...

Não conhecia o filme nem o livro, pois não sou muito acostuma a ler livros deste gênero,mas achei uma super indicação...Pois meu namorado amo filmes assim.
Abraço!!

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