sábado, 10 de maio de 2014

Conversa de Contracapa #08

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Na semana passada, li uma notícia que me deixou abismada e indignada. Patricia Secco, uma escritora brasileira, decidiu “simplificar” a obra de Machado de Assis. Segundo ela, não é de se espantar que adolescentes não gostem de ler o maior dos escritores brasileiros ou mesmo outros autores clássicos da nossa literatura. Afinal, muitas das palavras utilizadas por eles são desconhecidas dos jovens. Por isso, ela propõe facilitar a vida do leitor ao substituir palavras como “sagacidade” por “esperteza”, alegando que isto não altera a identidade do texto do autor, apenas simplifica. Sim, é isto mesmo que você leu. Aparentemente Machado de Assis (que revisava e reescrevia inúmeras vezes seus textos a fim de chegar na forma ideal de contar suas histórias) pode ser reescrito conforme se bem entende e continuar a ser Machado de Assis. Junte-se a mim e seja bem ao vindo ao clube dos ultrajados com esta audácia (Me desculpem. Talvez audácia seja uma palavra muito difícil. Se desejar, substitua por atrevimento, ousadia, desaforo. Meu texto é seu texto).

Antes de mais nada, gostaria de esclarecer que concordo plenamente com a importância de se incentivar o gosto pela leitura, independente do estilo literário, e não acho correto quando adolescentes - ou quaisquer leitores, na verdade - têm determinadas leituras empurradas a eles já que o mais importante é ler e ter prazer com a experiência que pode ser rica de formas diferentes e não apenas pela leitura de um texto impecável (mas essa Conversa tem todo um outro mérito. Deixemos ela para outra oportunidade). O que me escapa é porque alguém não pode gostar de ler Agatha Christie ou John Green, que têm textos descomplicados, mas também ser capaz de apreciar Shakespeare ou Jane Austen? Por que partir do princípio que o clássico não pode ser divertido e nunca arriscar a descobrir por conta própria? Por que menosprezar a inteligência de adolescentes e duvidar que possam gostar de autores como Machado de Assis apenas porque consomem livros como “Jogos Vorazes” (que, diga-se de passagem, foi muito apreciado por esta que vos escreve e que aos 14-15 anos adorou “Dom Casmurro”, aos 16 riu às gargalhadas com “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e no mesmo ano abandonou “O Cortiço” por não estar gostando da leitura)?

Ressalto que não tenho nada contra textos simples (e quem acompanha o blog sabe do meu amor pelos autores acima citados como descomplicados), mas se o que o leitor deseja é um texto simples, então escolha um texto idealizado e composto por seu autor para ser dessa forma e não uma versão simplificada de um texto sofisticado. Aparentemente, detalhes ricos e sacadas geniais como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” não merecem um minuto de atenção para serem apreciados e devem transformar personagens enigmáticas como Capitu em algo da categoria de Bella Swan, ou seja lá quem for que os adolescentes deveriam se limitar a conhecer. De certo por “olhos de ressaca” eles pensarão que Capitu passou a noite na balada com a galera.

Atitudes como as de Patricia Secco não aproximam os leitores das grandes obras e sim os afastam. Além disso, enganam aqueles que se prestam a ler uma dessas adaptações, levando-os a acreditar que não estarão perdendo nada ao não ler o texto original e, ao finalizar a leitura de uma adaptação como essa, estarão convencidos de que conhecem a obra de fato.

Esta, claro, não é a primeira vez em que livros clássicos são revisitados e que se alega que essas versões despertam em novos públicos a vontade de ler a obra original. É o caso, por exemplo, de livros como “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, algo que, particularmente, eu também não aprovo, mas não condeno da mesma forma, afinal, ninguém pega este livro para ler e acredita que encontrará ali “Orgulho e Preconceito” de fato, já que o tom de brincadeira fica claro no título e na capa do livro. Mas Patrícia tem a audácia (desculpem, de novo. Eu quis dizer cara-de-pau) de afirmar que o seu “O Alienista” será o mesmo de Machado de Assis, porém com algumas palavras mais simples. Deve ser por isso que Simão Bacamarte concluiu que era louco. No lugar dele, eu também ficaria ao saber que minha jornada fora a eleita para sofrer com este sacrilégio (pecado, insulto, afronta).

A autora defende o projeto dizendo que sua intenção com essas adaptações (que se estenderão também a “Pata de Gazela” de José de Alencar) é levar os clássicos a faxineiras e manobristas de restaurante que desconhecem o significado de palavras como “boticário”. Ora, e eu achava que a leitura servia justamente para nos fazer descobrir idéias, palavras e tantas outras coisas novas que não temos acesso no dia a dia (e que era para se descobrir o significado de palavras desconhecidas que existia o dicionário). É claro que pessoas mais simples merecem conhecer a obra de Machado de Assis, mas não acho correto alegar que, por serem mais simples, elas precisam ser definidas por isso. Que cada pessoa sabe o que sabe e está fadada a permanecer assim, sem ter a chance de apreender e ser desafiada por coisas que hoje desconhece.

Mas nem tudo está perdido. O que me consola é saber que o projeto não foi bem recebido por milhares pessoas. No Twitter, por exemplo, acompanhei com diversão pessoas das mais diferentes idades e cidades brasileiras escreverem as suas versões de títulos clássicos e frases marcantes de alguns dos livros mais importantes da literatura. Por outro lado, me choca saber que um projeto como esse recebeu verba do Ministério da Cultura. Alguém, por favor, me explica cadê a cultura nisso?

10 comentários:

Ana Paula Barreto disse...

É o que chamo de geração fast food, que precisa ter tudo rápido, pronto e mastigado. Isso para não precisar ter o trabalho de esperar, desvendar, saborear.
É uma pena que existam pessoas que incentivam esse tipo de comportamento fácil, mas que não leva a lugar nenhum.
Por experiência própria posso dizer que amei alguns livros com linguagem complicada. Porque o entendimento vem com a leitura. E não é tirando essa oportunidade da pessoa que se incentiva a ler outras coisas.
José de Alencar,Graciliano Ramos, Machado de Assis e tantos outros foram os autores que me "introduziram" à literatura. Hoje, gosto de outros estilos, mas posso dizer que foi graças a obra fantástica (e muitas vezes, densa) deles que descobri o amor pelos livros.
bjs

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Mari, isso é uma audácia sem tamanho. Simplificar uma obra sem alterar o contexto? Duvido! Concordo com revisões para ajustar às mudanças de ortografia, mas isso é inadmissível. Como você mesma disse, a leitura além de ser prazerosa deve expandir (ou melhor, abrir) nossos horizontes. Um grande projeto sem cultura.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Nardonio disse...

No início achei até interessante essas "simplificações" das obras clássicas, mas, depois de ler o que você expôs aqui, mudei completamente minha opinião. Não tinha levado a ideia por essa vertente que você falou, mas agora passei a ver esse projeto como algo completamente absurdo. Uma pena que já foi aprovado.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Karolayne Nascimentos Santos disse...

Acho que grandes obras só podem conquistar grandes mentes.
Se muitos jovens não gostam de Machado de Assis é porque ainda não desenvolveram maturidade suficiente para a interpretação da escrita do autor.
Alterar uma obra sem a aprovação do escritor simplificando-a, mesmo que seja para atrair mais leitores é um absurdo.
Os livros de Machado de Assis tem uma complexidade atraente que, ao meu ver, é a marca registrada do autor.
Achei essa ideia absurda e concordo com você.
Bjokas

Petra Henning disse...

Meu Deus! Que tristeza isso hein. É um absurdo!! Concordo contigo de que a leitura é um meio de descobrir ideias e palavras novas. Não se pode sair por ai "reescrevendo" uma história que foi pensada daquele jeito. Se assim for, penso que isso deve estar bem claro na capa do livro. O leitor tem que entender que aquela versão não é a original, mas uma adaptação do original.

Abraços!
Petra
http://naproximapagina.blogspot.com.br/

ps: vou divulgar o seu texto na página do meu blog, pois gostei muito. Tudo bem?

Ana Carolina Ribeiro disse...

Eu já acho um erro querendo mudar uma obra que nem é dela
Como reesecrevr um clássico,ta doida?
Acho que a itensão foi boa, mais de gente boa o inferno ta cheio :p rsrsr

Lais Cavalcante disse...

Mas oi? Como assim? Simplificar uma obra sem alterar o contexto? Tá estranho isso aí hein.
Assim como você disse, a leitura é um jeito para descobrir novas palavras e tudo mais... Acredito que seu segundo parágrafo resuma minha opinião por completo, a respeito de Jogos Vorazes, Dom Casmurro, O Cortiço...
Que absurdo isso!

Adriana disse...

Eu também acho que uma atitude assim, mas afasta que aproxima, afinal, o jovem cria a ilusão que Clássicos são sempre leituras chatas e entediantes, o que não é real, achei um pouco de falta de respeito com os grandes autores!
Adriana

Érika Rufo disse...

Por ideias assim que a educação vai de mal a pior!! Os estudantes estão tão acostumados a receber tudo tão "mastigado" que se desacostumaram a pensar. Não gostei desse projeto!!

Laura Zardo disse...

Como assim? Era só o que faltava! Que palhaçada!
Não é desse jeito que vão incentivar os jovens, estragando clássicos e desrespeitando os seus autores, e sem contar o fato de que estão chamando os jovens de burros, sem capacidade de pensar e ler uma obra mais profunda.
Vergonhoso, estou indignada!

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