sábado, 16 de agosto de 2014

Conversa de Contracapa #11

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

É comum compararmos as capas das edições brasileiras com as originais. Prova disso é que inúmeros blogs criam posts que apresentam as diversas “caras” que um livro recebeu pelo mundo.

Uma capa bonita é importante. Ela é o que fica nas nossas estantes antes e depois da leitura. Mas existe outro aspecto fundamental em uma edição que muitas vezes passa despercebido e é ele que nos acompanha no durante: a tradução.

A maioria dos livros que leio são de literatura estrangeira, mas ainda foram poucos os que li no texto original, em inglês. Isso significa que quase todas as minhas leituras passam pelo processo de tradução.

Antes de chegar ao assunto principal dessa conversa, me permitam ressaltar que pensar que tradução é um trabalho simples e que basta ter conhecimento dos dois idiomas envolvidos é um engano colossal. Tradução não é uma transferência. Não é fazer uma colagem de palavras. Não é trocar “red” por “vermelho”. Tradução exige tato do tradutor para que o texto original seja o mais preservado possível.

Já tive algumas experiências (amadoras) com traduções de vídeo e posso afirmar que traduzir de ouvido é difícil, pois envolve questões como sotaque e ritmo de fala. Em resumo: nem sempre é fácil entender o que a criatura está falando e localizar uma palavra desconhecida no dicionário envolve um processo quase de adivinhação (se o Alê estivesse escrevendo este texto comigo estaria concordando enfaticamente visto que já passamos juntos por uma experiência dessas).

Levando isso em consideração, seria de se pensar que traduzir textos é mais fácil, afinal, o texto está ali e se você não conhece uma palavra basta procurar no dicionário. Engano. A tradução de um texto, em especial o literário, é algo extremamente delicado, pois precisa manter o estilo do autor – o que nem sempre é fácil já que um idioma tem características diferentes de outro. Pense em um autor de narrativa ágil, daqueles que você vira páginas e páginas pela madrugada sem nem perceber. Se você tem algum conhecimento de inglês sabe que essa é uma língua, em essência, mais ágil que o português, então pense o quão complicado pode ser colocar esse texto em português mantendo o ritmo original. Pense em um autor como Carlos Ruiz Zafón, cuja narrativa é extremamente poética. Pense em um idioma como francês que tem uma sonoridade completamente diferente do português.

O trabalho do tradutor não é só colocar em português o que estava no idioma original, mas sim encontrar o correlato mais próximo para que seja mantido não apenas o que foi dito, mas como foi dito.

Comecei a me alertar para isso quando, certa vez, ouvi de um tradutor que trabalhar com os textos de certa autora de livros policiais era enfadonho já que, na opinião dele, ela “não tem estilo algum”. Atualmente, este tradutor trabalha bastante com textos de Bukowski (autor que, sem dúvida, preservar o estilo deve ser um desafio muito maior). Foi com esse comentário que percebi que traduzir um texto não é como traduzir outro. Pense o quão complexo deve ser colocar em português um texto de Shakespeare ou um clássico de Jane Austen (que exige uma linguagem rebuscada e tem um ritmo completamente diferente de um Agatha Christie, um Raymond Chandler ou um John Green).

Uma experiência que volta e meia vivencio é “ouvir” a frase no idioma original em meio a uma leitura. Por que isso ocorre? Porque a tradução foi mais de palavra para palavra do que de sentido para sentido (e eu acredito que certas expressões se aproximam mais do contexto original quando uma ou outra palavra é alterada). A consequência é que me “descolo” da narrativa e por breves instantes saio da história, pulo fora do cenário, porque aquela frase não encaixou e me fez lembrar que aquilo tudo é um mero texto.

A razão pela qual trago essa conversa é porque um caso em particular me chamou a atenção nos últimos dias. Um best-seller americano foi recentemente lançado no Brasil, gerando muita expectativa já que o livro figura em listas de mais vendidos e recebeu ótimas avaliações em sites como Amazon e Goodreads, além de apresentar o tipo de história que muitos amam. Porém qual não foi a minha surpresa ao observar que a maioria dos leitores brasileiros tem se decepcionado com o livro? Alguns nem sabem apontar porquê o livro não foi o que esperavam, outros têm até abandonado a leitura. Então eu me pergunto: Como é possível que um livro (cuja história é universal e não algo direcionado a realidade de um lugar específico) agrade tanto em um país e desagrade tanto em outro? É o mesmo livro, a mesma história, os mesmos personagens. Só está em outro idioma. A reação não deveria ser parecida? Mas então uma explicação me ocorreu: alguma coisa pode ter se perdido na tradução.

Não li o livro em questão, mas arrisco dizer que, talvez, pode ser que a história tenha se mantido, mas o estilo do autor não (e sou da opinião que um bom livro se faz muito mais de como a história é contada do que da história em si. Como exemplo, pense em um livro como “A Culpa é das Estrelas”. A história é triste e aborda um tema pesado, mas o livro é leve e até mesmo divertido. Por quê? Pela maneira como o autor conta a história. Já pensou se a tradução não mantivesse isso?). Quanto ao best-seller controverso, talvez uma tradução diferente teria feito dessa leitura uma experiência maravilhosa para os leitores que a abandonaram.

Reparamos nas capas, mas não no nome do tradutor (eu mesma não faço isso), mas talvez ele seja, depois do autor e do editor, o profissional mais diretamente ligado a nossa experiência de leitura.

Como eu disse, tradução exige tato e sensibilidade para que o texto original encontre sua forma no novo idioma e não apenas suas palavras. Imagino que deva ser tarefa árdua, mas as editoras devem estar atentas a sua importância. De nada adianta ter um ótimo título em mãos, caprichar na capa e se empenhar na divulgação se a tradução deformar o texto do autor. A boa tradução é aquela em que o dedo do tradutor é invisível.

9 comentários:

Ana Clara disse...

Oi Mari, tudo bom?

Ótimo texto, parabéns. Eu nunca tinha parado pra pensar na tradução dessa forma. Sei que é uma das coisas mais importantes no livro, é claro. Não sei de qual livro você está falando no post, mas isso me fez pensar que, talvez, o motivo de eu não ter conseguido engatar na leitura de "Morte Súbita" seja exatamente a tradução. Quer dizer, depois dos sete livros de Harry Potter, eu já havia me apegado à escrita da autora, e em "Morte Súbita" eu não senti que fosse a J. K. "falando", sei lá. Mas enfim, gostei muito do post., mesmo.

Beijos!
http://www.roendolivros.com/

Jéssica Soares disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Adorei o seu texto e o tema discutido! Confesso que tradução era uma das minha últimas preocupações quando entrei na blogosfera literária e, depois de algumas experiências bem complicadas com as leituras de alguns livros, percebi o quanto ela era importante. Li "O Grande Gatsby" em uma edição brasileira mais antiga e, como resultado, fiquei completamente desanimada com o livro. Só após dar uma chance a uma nova edição e ainda conferir o livro na sua língua original é que me envolvi muito mais com a história e, ao fim da leitura, o resultado foi positivo. Ainda acredito que a discussão sobre a tradução de livros não tem uma grande importância no nosso país, mas espero que isso mude considerando que, a cada dia que passa, mais pessoas estão lendo. Adorei o post!
Jéssica - http://lereincrivel.blogspot.com.br/

Diêgo Borges de Oliveira disse...

Oi, Mari! Blz?
Já tive umas experiencias com tradução e, posso afirmar, não foram muito bem sucedidas. Quero dizer, enquanto você só está lendo, tudo se encaixa perfeitamente bem em sua cabeça. Mas quando você pensa em passar para o português, as coisas se complicam. Encontrar as palavras certas, manter o ritmo, enfim, acaba se tornando uma arte, que leva tempo para se aperfeiçoar...
Gostei muito do seu tempo. Às vezes acho que seria legal se todos soubéssemos ingês e lêssemos a obra em sua língua original. Mas também acho que, quando lermos aquele livro, traduzido, eletrizante e terminarmos em questão de horas, devemos ficar agradecidos pelo bom trabalho do tradutor.

Abraços,
Diego.

pecasdeoito.blogspot.com.br

RUDYNALVA disse...

Mari!
Tenho de concordar com você e muito no que diz, porque na verdade uma tradução que não é bem feita, prejudica muito o ritmo e o contexto do livro e nos deixa como leitores com um incógnita na cabeça sem saber o porquê de nada daquilo fazer grande sentido.
Tenho o hábito de ver quem faz a tradução e nas resenhas que faço, até os cito, porque afinal, eles são como o 'escritor' em nossa língua. E depois de tantos livros lidos através de traduções, percebo os que fazem um boa tradução e nos permite uma leitura mais perto do que o texto original, já outros, quando vejo quem é o tradutor, leio com certo receio...
Muito boa sua colocação para que nos atentemos ainda mais.
cheirinhos
Rudy
Blog Alegria de Viver e Amar o que é Bom!

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Nunca tinha pensado nessa questão com muita profundidade, Mari. Mas faz todo o sentido isso. Se o livro que você mencionou é o que estou pensando, vi alguém levantar essa hipótese no Twitter essa semana. Se for isso é uma pena, pois muita gente deixará de ler até que saia uma nova edição/tradução. E já percebi essa questão de tradução em filmes e séries. Tenho um conhecimento muito básico de inglês, mas com o pouco que sei já vi legendas destoarem do que foi dito e até da entonação do ator. Ótimo texto.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Jeni Viana disse...

Oi, Mari! Cara, confesso que sou mais de reparar capas que os nomes dos tradutores. E o seu texto me fez refletir sobre isso, porque até o momento só pensava que traduzir um original para outra língua tem realmente uma ligação maior com o significado das palavras que com a essência, ritmo e coisas desse tipo que ela apresenta. Parabéns!

Doce Sabor dos Livros - Aguardo a sua visita!

Débora Costa disse...

Eu reparo muito no nome dos tradutores quando compro um livro. Confesso que já encontrei mais de um livro de um tradutor só e hoje classifico os que eu acho bons, dos que acho ruins. É um trabalho muito importante, porque a escolha das palavras deles é que vai definir o nosso entendimento.

www.laoliphant.com.br

Nardonio disse...

Ótimo tema pra se tratar nessa coluna, Mari! Confesso que nunca parei pra pensar em relação ao tradutor. Faço parte, ou melhor, fazia, do grupo que sempre achou que traduzir um livro era apenas um trabalho mecânico (sou idiota mesmo, né?!?! kkkk). A partir de agora, vou sempre dar uma conferida nesse profissionais também.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Liza Mikaelly disse...

Eu gostaria de ser fluente em inglês porque muitas vezes a historia original em sua língua no retrata outro tipo de sensação, já quando está em português vocês se sente completamente diferente da versão com o seu idioma original. Não estou falando que são todos peraí mais tem alguns tradutor é que diferenciam muitas coisas como o titulo por exemplo que muitas vezes fica muito diferente de seu original. Beijos <3

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