quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Conversa de Contracapa # 14

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Uma pesquisa conduzida pelos psicólogos David Comer Kidd e Emanuele Castan comprovou que a leitura aumenta nossa capacidade de empatia. Foram realizados cinco experimentos, sendo que os participantes eram selecionados aleatoriamente para ler trechos de literatura de entretenimento (“popular fiction”) ou de alta literatura (“literary fiction”). Os testes comprovaram que aqueles que leram alta literatura mostraram resultados melhores do que os demais. 

A explicação é que a alta literatura aborda o lado mais psicológico dos personagens, não mastigando tudo para o leitor, mas deixando que este participe mais ativamente, lendo nas estrelinhas e preenchendo as lacunas propositalmente deixadas pelo autor. A seu turno, a ficção de entretenimento não possui tais características, sendo que o autor constrói toda a experiência de leitura que o público terá. 

Os autores da pesquisa afirmam que não podem concluir quais livros poderiam ser considerados alta literatura, pois trata-se de aspecto de natureza acadêmica, e não psicológica. Embora tal diferenciação me cause repulsa  pois sempre que leio, leio por prazer, seja Jane Austen ou Shakespeare, seja Stephen King ou John Green , creio que a pesquisa de fato faz sentido. 

Qualquer pessoa que já tenha lido Grandes Esperanças percebeu a espantosa habilidade de Charles Dickens fazer com que o leitor se questione sobre as intenções dos personagens e interprete suas atitudes. O mesmo poderia ser dito sobre O Pintassilgo — livro que rendeu a Donna Tartt o Pullitzer de literatira —, em que acompanhamos Theo da adolescência a vida adulta, e mesmo sem uma narrativa detalhista, o leitor entende as origens dos medos e receios do protagonista, bem como suas motivações. E como não mencionar Machado de Assis, que até hoje faz os leitores se perguntarem se Capitu traiu ou não Bentinho? 

É claro que por essa característica, a alta literatura realmente faz com o leitor reflita com mais intensidade sobre o que está lendo, entretanto, creio que a literatura estigmatizada como "de entretenimento" também torna o leitor uma pessoa mais empática. A meu ver, empatia é a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa e de compreender diferentes perspectivas. Nesse sentido, creio que obras que seriam consideradas literatura de entretenimento certamente me tornaram uma pessoa mais empática, e talvez até mais do que livros da alta literatura. 

Como não reconhecer a grande lição de vida que apreendi com Auggie de Extraordinário? Um livro simples, que não apenas faz o leitor refletir, mas que também o leva a se colocar no lugar de todos os personagens, e entender lutas e conflitos tão diferentes dos seus. Por sua vez, a saga Harry Potter mostrou o preconceito por questões raciais (lembram dos trouxas, sangue-ruins e abortos?), fazendo o leitor ficar indignado com os insultos direcionados a melhor aluna da classe. Em Quem é você, Alasca? apreendemos que a vida pode ser como um labirinto de dor, e que não é fácil suportá-lo sozinho. A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert revelou a complexidade por trás de um amor proibido. Perdão, Leonard Peacock nos mostra o trauma de um adolescente depressivo. Sete Dias Sem Fim nos faz entender a complexidade do luto e as consequências do adultério. Garoto Encontra Garoto (resenha em breve) revela distintas formas de encarar a sexualidade. Como vocês podem ver, exemplos de livros da literatura de entretenimento que me despertaram a empatia não faltam. E estou certo que poderia citar muitos outros. 

A verdade universal é que a leitura nos tira da nossa zona de conforto e nos mostra uma diversidade que, geralmente, desconhecemos. Ler é se abrir a um novo mundo, é se despir dos preconceitos e julgamentos, é perceber que a vida não é tão maniqueísta, é ver um ponto de vista ficcional, mas que pode ser exatamente igual a de um amigo ou familiar e, a partir daí, compreendê-lo melhor. Ler é crescer como pessoa. Seja alta literatura, seja literatura de entretenimento, leia e se torne uma pessoa mais empática.


23 comentários:

Rafa Hübner disse...

Que show de texto, Alê!

Eu concordo com vc, os dois "tipos" de literatura nos tornam mais compreensivos com as pessoas que nos cercam.
Gosto de pensar que o que vc tira de um livro depende do seu leitor. O exemplo clássico é o do Pequeno Príncipe, acho que se vc o lê quando criança, a história é uma; se vc o lê mais "grandinho", os significados mudam. O mesmo acontece com a Revolução dos Bichos. Tanto que, mesmo em uma releitura vc nota coisas que não notou da primeira vez que leu, ou algumas coisas são interpretadas de uma maneira diferente da primeira leitura. Enfim, o assunto dá pano para manga haha

De novo, excelente texto!
Beijão
Arrastando as Alpargatas

Matheus Braga disse...

Hey Alexandre, tudo bem?

Primeiramente gostaria de informar que se pudesse, queimaria todos os exemplares de Dom Casmurro da face da terra!!! Tenho ódio mortal desse livro HAHAHAHAHA

Concordo que a leitura dos grande clássicos faz com que o leitor reflita mais sobre o que está lendo, ela normalmente não só expande nosso vocabulário, vez que sua narrativa é mais densa e usa de um linguajar mais rebuscado, como faz com que o leitor mergulhe intimamente na personalidade e subconsciente do personagem. Mas a questão é: o que pode ser considerado um "grande clássico"? O fato do livro ser objeto de estudo de grandes acadêmicos não o torna um livro clássico, assim como grandes nomes da literatura "pop" como Harry Potter e Guerra dos Tronos são considerados clássicos atuais por muitos. É um tema muito complicado.

Minha opinião é de que qualquer leitura é válida, desde que o leitor consiga tirar algum proveito dela, por menor que seja. Não adianta nada vários blogueiros anunciarem no twitter que leram 150 livros em um ano se não tiraram nenhum proveito dessas leituras, ao passo que alguém que leu 5 conseguiu absorver mais e crescer como leitor. Não importa se passará a madrugada lendo 50 Tons de Cinza ou O Fantasma da Ópera, desde que seja uma leitura proveitosa, e não somente o "ler por ler" ou para cumprir prazo de editora.

Bom, vou parar por aqui senão meu comentário vira uma mini monografia HAHAHAHA. Adorei o texto, parabéns.

Abraços,
Matheus Braga
Vida de Leitor - http://vidadeleitor.blogspot.com.br/

blogsemserifa.com disse...

Discussão bem interessante!

Também não gosto da divisão entre literatura "de entretenimento" e "alta". É claro que existem livros que não pretendem causar grandes reflexões e que não exploram a psicologia dos personagens, mas já li muitas obras que jamais seriam consideradas alta literatura e que fizeram isso extremamente bem. O problema é que essa divisão tende a excluir obras bem escritas de gêneros tradicionalmente desprezados pelos estudos "sérios": fantasia, ficção científica, literatura infantil... Leio um pouco de tudo, mas adoro literatura "de entretenimento": e acho que toda literatura deveria ser "de entretenimento", pra falar a verdade. Os livros de que eu realmente não gosto, independentemente de gênero, são aqueles pelos quais não me importei nem um pouco com os personagens ou que não têm uma história interessante. Agora, Grandes Esperanças é um clássico, sim, mas extremamente divertido e envolvente, ao mesmo tempo que qualquer fã atento das Crônicas de Gelo e Fogo pode passar várias horas discutindo a psicologia das personagens.
Um sinal de que uma obra é bem escrita é justamente deixar espaço para reflexão. Hoje, pra mim, se o autor deixa tudo mastigado, não tem muita graça ficar pensando no livro, o que não quer dizer que a leitura em si não possa ser divertida (qual o mal em ler alguma coisa só pra se distrair?!). E vale a pena lembrar que a literatura infantojuvenil é geralmente mais explicativa devido à faixa etária; não é por apresentar os motivos dos personagens abertamente que o livro vai ser ruim!
Resumindo, de maneira alguma os únicos livros que te fazem pensar são de "alta" literatura. E quanto à questão da empatia, acho que a literatura de entretenimento pode ser bem efetiva, sim - e não há dúvida de que atinge mais pessoas.
Vou parar o TCC por aqui, hahah.
Bjos!
Isa

Lhéu Suély disse...

Sou péssima para ler livros, leio muuuuuitas revistas.
Acho legal blogs literários para sabermos resenhas de livros, pelo menos fico por dentro.
Gostei, muito legal!
Blog ArroJada
Divulgação de Blogs

Julia G disse...

Oi Alê, achei muito interessante essa discussão. Assim como você, acredito que a literatura (seja de qual tipo for), nos tira da zona de conforto e faz com que vivamos experiências que nunca teríamos oportunidade, então nos amadurece. Mas essa diferenciação sempre existiu e continuará. No meu caso, apenas relevo e não entro no mérito da questão, mesmo naqueles casos em que há uma crítica sobre a literatura de entretenimento, porque acho que o importante é ler, sempre. Se há mais empatia junto com isso, melhor ainda *-*

Beijos

Kamila Villarreal disse...

Olá!

Leitura, independente do autor ou gênero, liberta, diminui nossa ignorância. Claro que há os clássicos, que nos fazem refletir, mas todos os livros têm o poder de nos fazer sonhar, viajar para lugares que dificilmente poderemos ir, nos transporta, nos tira de nossa realidade caótica e cruel... Enfim, o importante é ler, seja a alta literatura ou os sucessos de hoje.

resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

instagram @blogresenha

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Só tenho a concordar com você, Alê. Qualquer livro seja popular ou não pode nos ensinar algo e nos impulsionar a sermos pessoas melhores. Se a leitura for prazerosa só potencializa o impacto das lições tiradas. Já li muitos livros de entretenimento e nem tantos de alta literatura, mas certamente tive bons aprendizados com todos. Excelente post.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Pampilho Ordinário disse...

Também acho. O importante é que você leia e absorva o que o livro te passa. Bobagem aqueles que jugam o livro pela capa e aqueles que jugam o leitor pelo o que ele anda lendo.

Pampilho-Ordinário

thayna ta disse...

Bom, pela parte de empatia eu não sei. Vejo gente bem egoísta por ai, sem a capacidade de compreender a dor dos outros. Mas o universo literário realmente pode mudar algumas pessoas. Tanto para a bondade ou o oposto. E claro, tem aí as obras literárias bem conhecidas para nos colocarmos no lugar dos personagens. Sim, ler é crescer de várias formas.
Abraços Alê, lindo texto =}
ThayQ.
http://leituras-insanas.blogspot.com.br

Milena Maciel disse...

Concordo com você. Não importa se a leitura que a pessoa está fazendo é de "entretenimento" ou "alta", desde que a pessoa absorva algo daquele livro e possa colocar em prática, a leitura é válida. Ótima reflexão e belo texto.
Beijos
Devaneios Insignificantes

Jacqueline Braga disse...

Oie Alê
Concordo completamente com sua posição. Acho que não importa se o livro tem dramas mais complexos, ou uma linguagem mais difícil, ou uma história mais simples. Desde que a historia gere algum tipo de reflexão, ou mesmo algum entretenimento, toda experiência de leitura é válida.
bjos
www.mybooklit.com

T.P Fouryoubooks disse...

Olá Alê e Mari! Tudo bem?
Achei super interessante o texto... Concordo com o que você disse, pois acredito que é sempre importante ler independente se é de "alta literatura" ou de "entretenimento contanto que a pessoa sempre leia!
Parabéns pelo texto *-*
Beijinhoss
T.P
4 You Books

Fernanda disse...

Excelente seu texto, dificilmente leio resenhas tão boas quanto esta que acabei de ler! Parabéns, adorei vc explicar mais sobre os estudos envolvendo a alta literatura, sempre achei tudo isso que foi abordado em seu texto, muito bom mesmo!

http://dailyofbooks.blogspot.com.br/

Paula de Franco disse...

Oi, Alê.

A palavra que saiu de meus lábios quando terminei de ler o post:Uau! Realmente acredito que ler independente de que tipo de literatura sim torna a pessoa mais empática e tento não crucificar quem lê apenas um gênero e não se arrisca em outros. Fiquei vendo os livros que você citou no final do post e dele eu li: Extraordinário, Quem é você, Alasca? e Perdão, Leonard Peacock. Realmente esses foram livros que me fizeram refletir a respeito de alguns aspectos da vida. Um livro que eu amei foi Os 13 Porquês do Jay Asher, ele nos mostra como pequenas coisas que acontece em nossas vidas nos leva a certo atos e como o que eu faço repercuti em outra pessoa. Parabéns! Anotei aqui A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert para ler. \o/

Até mais.
Visite: Paradise Books BR // Sorteio Fim de ano

Renata Pereira disse...

Gostei do texto, independente do lemos, a leitura sempre tem algo a nos oferecer, seja reflexão ou apenas entretenimento. Não gosto de rótulos ou de julgamentos para leitores, quem lê Jane Austen ou Dickens é "melhor" que quem lê Nora Roberts, por exemplo...acho isso um absurdo do absurdo e dispenso esse "leitores que se acham melhores que os outros". Concordo totalmente com vc quando falou que é pra se despir de julgamentos, é isso mesmo... Penso que o negócio é ler, é sair de nosso mundinho e explorar diversos outros, e quando podemos compartilhar e trocar experiências é melhor ainda!
bjs

Desbravadores de Livros disse...

Ótimo saber disso, Alê. Nós estamos em vantagem, então, rs.
Ainda não li esses livros citados, mas O Pintassilgo é uma das leituras que estou desejando no momento.
Tenho Extraordinário, mas ainda não li.
Claro que não poderia faltar o King, né?! E concordo com você quando diz que a literatura nos tira da zona de conforto, realmente... Percorremos um campo desconhecido e delicioso, por sinal, não muitas vezes, claro.

Ana Clara disse...

Oi Alê!

Primeiramente, gostaria de dizer que não acredito de forma alguma que Capitu traiu Bentinho. Pra mim foi tudo coisa da cabeça dele, mas enfim. É tão bom saber que estamos com certa vantagem na sociedade, né? E eu também acredito que independentemente da leitura, sempre conseguimos tirar algo dela. Às vezes eu me pergunto como existe tanta gente no mundo que não gosta de ler, fico abismada.

"Extraordinário", por exemplo, é um livro que mexeu com a maioria das pessoas que o leram. A mensagem que ele traz é muito linda. Gente, pelo amor, ler é o melhor remédio para tudo. hahaha

Beijo!
http://www.roendolivros.com/

Aymée Meira disse...

Alê, que post fantástico. Bom ler sempre faz bem, ninguém começa lendo alta literatura de um dia pro outro. Tudo é gradual. Eu confesso que detesto livros mastigados. Porém, sinto necessidade as vezes de pegar algo que não precise refletir muito, pois lendo livros muito reflexivos são bem cansativos, fico com pensamentos por vários dias...até meses sobre determinado livro que li. Até de livros simples, podemos tirar mensagens interessantes que levem a reflexão.

Seu último parágrafo resume minha opinião sobre o assunto.

beijos,

Amy - Macchiato

Mariana Ogawa disse...

eu tinha visto essa matéria sobre quem ler mais é mais empático. eu acredito que o fato de você acompanhar a vida, decisões e sofrimentos de personagens "fictícios" ajuda a olhar ao seu redor de outra forma.

eu adorei o comentário sobre os clássicos, eu sou daquelas que lê de tudo (e como eu citei em algum comentário passado, meio que de época) tem pessoas que querem dizer que só serve se for isso ou aquilo. se não for clássico não presta, ou se não for autor X ou Y e por ai vai

eu acho que as pessoas tem que ler aquilo que gostam e tentar tirar as lições: muita gente que eu conheço não prestou atenção da questão racial no harry potter ou mesmo da depressão (na forma dos desmentadores) e pensam: são bruxos eles não existem. E esquecem de ver que foi uma forma que a autora abordou problemas reais

voltando aos clássicos: realmente TODO mundo se pergunta se a capitu traiu o bentinho, e os debates na época de colégio? o melhor foi um amigo meu dizendo que acreditava que ela não tinha traido, mas que ele merecia pq ele era muito chato ! a raiva com que ele falava, parecia que ele estava falando de uma pessoa real!

o último paragrafo meio que resume a minha opinião
bjs

Fabricia Kelly disse...

Que coluna legal, super curti, nuca tinha visto nada do tipo. No livro Dom Casmurro a minha opinião é que Capitu traiu Bentinho sim.
Beijos!
http://bidicas.blogspot.com.br

Nardonio disse...

O que geralmente me irrita nessas pesquisas é esse tesão de "depreciar" a literatura de entretenimento. Por quê achar que a alta literatura deixa uma pessoa mais culta ou mais empática do que a de entretenimento?!?! Enfim, creio que todos os livros, sendo da alta literatura ou não, deixam seus aprendizados.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Vitória Pantielly disse...

Oi Alê :]

Tenho o mesmo pensamento que você, a não ser que eu esteja estudando algo, eu sempre leio por prazer, e também não gosto dessa diferença que eles colocam entre literatura de entretenimento e alta literatura, mas acredito que o que a pesquisa indica seja verdade. Quando li Extraordinário me perdi tanto no livro, questionei tantas coisas, e sim, refleti mais do que normalmente faço em um livro, assim como quando li Proibido, apesar da história no livro, os acontecimentos nos levam a rever tudo que acreditamos e refletir sobre o que realmente está certo ou errado, e nos dois casos li por prazer! Concordo, ler é o ajuda a tornar a pessoa mais empática, independente do que for.
Adorei o texto :D

Amanda Pampaloni Pizzi disse...

Adorei o texto!
Realmente, eu acredito que quem lê, independente da denominação, é uma pessoa digamos, diferenciada.
Claro, há que se considerar os gostos também. Tem quem prefira livros complexos, tem quem prefira os que sejam fáceis e de rápida leitura, só pra passar o tempo.
Esses dias li uma coluna que dizia quais livros clássicos são mais mencionados em conversas e que, na verdade, as pessoas nem lêem (isso na opinião do autor do texto). O importante é ser verdadeiro com seu gosto e se dar a oportunidade de conhecer novos autores e livros.
Beijos.

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