domingo, 14 de fevereiro de 2016

Conversa de Contracapa # 25

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

No dia 02 de fevereiro de 2016, o juiz Alberto Salomão Junior tomou uma decisão, para dizer o mínimo, polêmica: proibir a exposição, venda ou divulgação do livro Minha Luta de autoria de Adolf Hitler. Para o magistrado, a obra incita a prática de ódio contra grupos minoritários e foi responsável por fomentar o extermínio de milhares de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, por estar em desacordo com o objetivo fundamental de proteção aos direitos humanos previsto na Constituição Federal, o juiz censurou o livro. 

Apesar da boa intenção do magistrado, discordo profundamente de sua posição. Não há dúvidas de que o conteúdo de Minha Luta é uma afronta aos direitos humanos e que as ideias de Hitler foram responsáveis por um dos maiores massacres da história. Entretanto, a proibição constitui uma ação inócua e não impedirá a divulgação dos ideais nazistas. 

Isso por que aqueles que já tem interesse e se identificam com esta ideologia não serão impedidos por esta decisão. Tenhamos em mente que este ano o livro entrou em domínio público, sendo possível encontrá-lo na internet, além de que o próprio mercado negro estará disposto a dar conta desta demanda. Além disso, a proibição somente é válida para o Estado do Rio de Janeiro, então, a aquisição legal ainda será possível nos demais estados. 

Por mais nefasto que seja, Minha Luta é uma obra de inegável valor histórico. Não adianta fechar os olhos e fingir que os horrores da Segunda Guerra Mundial não aconteceram. Pelo contrário, jamais devemos esquecer das milhares de vítimas mortas em câmeras de gás apenas por causa de sua religião, etnia, raça ou orientação sexual. Se devemos aprender algo com a História, diria que a mais importante lição seria aprender a não repetir os erros do passado. E por isso mesmo Minha Luta deve ser um lembrete permanente à humanidade sobre os perigos de uma ideologia baseada na superioridade de uma raça e na incitação ao ódio de determinados grupos. 

Outro fator importante é que ao vedar a “divulgação a qualquer título” está se vedando o próprio debate sobre a obra. E Minha Luta merece justamente o contrário. Apenas confrontando os princípios expostos no livro e trazendo-os a luz é que se verá o quão estapafúrdios eles são. Não é demais dizer que a intolerância e o preconceito surgem justamente da ignorância. 

Por fim, Minha Luta é necessário para nos lembrar que um homem com ideais deturpados subiu ao poder e teve apoio da população. Acreditamos tanto no progresso do homem e da civilização que nos parece absurda a ideia de que algo assim possa ocorrer de novo. Mas será mesmo? No Brasil, vejo um deputado federal machista, racista e homofóbico que conta, em sua página no Facebook, com mais de 2,5 milhões de curtidas. Nos Estados Unidos, um dos pré-candidatos a Presidente utiliza sua campanha para incitar ódio contra mulçumanos e imigrantes, e recentemente ganhou as primárias no estado de New Hampshire. 

Os Hitlers do século XXI existem e seus discursos de ódio, preconceito e intolerância são cada vez mais populares. A história se repete e Minha Luta tem o importante papel de ser um chamado a consciência antes que o discurso vire uma prática. Se é que já não virou. 

Para ler a decisão do juiz Alberto Salomão Junior na íntegra, clique aqui

22 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Alê!
Quando vi essa notícia, eu achei um absurdo. Claramente o juiz nunca nem sequer leu sobre o que se trata esse livro.
Beijos
Balaio de Babados | Participe do sorteio do livro Marianas

Isabelle Vitorino disse...

Ler a sua postagem foi como ter os meus pensamentos sendo ditos por outra pessoa. Cada pontuação sua foi de inegável valor para tratar de um assunto que ainda hoje gera tanta polêmica.
Não acredito que a censura seja a melhor saída para um caso em que o que está à baila está aquém de ideias de soberania e segregação, e se aproxima muito mais do valor que a obra tem como documento histórico.
Acredito que como qualquer outro livro, "Mein Kampf" está sujeito a interpretações, ou seja, a questão não é só o conteúdo do livro mas sim o modo como ele será entendido por aquele que está lendo. Generalizar a situação é percorrer um caminho errado, pois, ao meu ver, ignorância nunca irá se sobrepor ao poder que o conhecimento tem.
Ademais, quem quiser ter acesso aos escritos, terá, visto que cópias digitais e físicas estão disponíveis em sites de downloads, bem como, em sebos. Na minha faculdade, por exemplo, muitos alunos leram o livro para a realização de um júri simulado do Adolf Hitler na disciplina de Filosofia Jurídica e isso só acrescentou ao nosso debate.
Infelizmente, ainda é comum as pessoas confundirem interesse científico com compactuação de ideais. Espero que isso mude um dia, pois sou a favor de um mundo onde a informação circula livremente, permitindo que o indivíduo exerça sua liberdade de pensar fora da caixa que fomos estimulados a cultivar desde a mais tenra idade por meio de uma educação bancária que não acrescenta nada de sólido a construção do ser.

Beijos,
Isabelle | http://www.mundodoslivros.com/

Laís Lubrani disse...

Concordo completamente com você, Alê! Penso exatamente como você. Essa história já existe e ninguém vai apagar isso. E é uma PUTA história -- com o perdão da palavra --. Acho que isso deve ser sim propagado.
Beijos.
www.chadefirulas.com.br

Thati Machado disse...

Os motivos que levaram à proibição da venda e divulgação me parecem um pouco contraditórios, confesso. Há diversos livros (até mesmo filmes, documentários etc) relatando histórias absurdas, e nem por isso acredita-se que eles influenciarão outros indivíduos de maneira errada. Vou continuar acompanhando o caso para saber das novidades a respeito.

Beijo grande! ♥

Thati Machado;
http://nemteconto.org

Desbravadores de Livros disse...

Olá, Thati.
Sou obrigado a concordar contigo completamente.
O livro já está disponível para download há anos. Conseguir o exemplar físico também não era tão difícil assim. Agora que temos a possibilidade de desconstruir o livro, essa decisão me parece estranha. Tenho certeza que muitas editoras lançarão a obra comentada, o que ajuda a entender a ideologia e contestá-la.
Como leitor que mora no Rio de Janeiro, tenho que repudiar essa decisão.

Desbrava(dores) de livros - Participe do top comentarista de fevereiro. Serão dois vencedores!

Carolina Rocha disse...

Oi, tudo bem? Eu concordo completamente com você, e acho isso tudo um absurdo!

Um super beijo,
Carol.

Lendo Distopias

Gabriela CZ disse...

Nem sei o que comentar, Alê. Concordo plenamente com você. Proibir a divulgação de Main Kampf não mudará ou apagará o que aconteceu, creio que debatê-lo seja justamente uma forma de mostrar às novas gerações como não repetir tragédias como o Holocausto. Sem falar que proibi-lo não é uma atitude muito diferente da dos nazistas que queimaram tantos livros em praça publica. Ótimo post.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Dan Igor disse...

Assunto interessante, não concordo com essa decisão da justiça do estado, apesar de ter um assunto bem mal-visto (pelo menos por mim), pode ser de conhecimento inegável, além do mais, acho que não vai servir de muita coisa já que a lei não é abrangente. Abraços :)

Ariane Reis. disse...

Oie Alê =)

Sabe aquela:" A intenção é boa, mas não resolve o problema?". Ao meu ver a decisão desse juiz de enquadra bem nessa descrição. Realmente nunca vi uma onda de preconceito e extremismo tão grande em nosso país como de um tempo para cá, mas não acredito que a proibição de um livro ( mesmo ele sendo de autoria de um dos maiores psicopatas da história da humanidade) vai resolver alguma coisa.
Algumas crenças e costumes estão muito enraizadas na criação que recebemos, além de claro que caráter é algo que muitas vezes nem a melhor educação pode mudar. Se a pessoa tiver que se "ruim", preconceituosa, ou até mesmo defender um ideal com o nazismos, não é a falta de um livro ou a presença dele que vai fazer diferença.


Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Vanessa Vieira disse...

Gostei do post Alê. Achei a decisão tomada pelo juiz carioca extremista demais. Não existem rótulos ou manuais que moldem o cárater de uma pessoa; a nossa natureza é pertinente a nós mesmos. Abraço!

www.newsnessa.com

Não Vivo Sem Livros disse...

Adorei sua resenha, você escreve muito bem. Fiquei muito tentada a ler esse livro.

Beijos.
Blog Não Vivo Sem Livros

Vida de Leitor disse...

Que horror! Não tinha ouvido falar disso ainda... e realmente, não se deve proibir a exposição do livro principalmente porque não devemos esquecer o ocorrido! Deus me livre de acontecer algo parecido novamente.
Beijos,
Maria - doprefacioaoepilogo.blogspot.com.br

Teca Machado disse...

Oi, Alê!
Quando vi que estava republicando esse livro, minha primeira impressão foi "cruzes, como fizeram isso?", mas depois pensei bem e refleti que não vai ser o livro que vai fazer as pessoas "mudarem de lado", sabe?
Tem que ter debate, conversa, mostrar porque ele é tão errado, tão afronta aos direitos humanos.
Você tem toda razão em seus argumentos.
O valor histórico é inegável, mesmo que para o mal.

Beijooos

www.casosacasoselivros.com

Florescer Literário disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Florescer Literário disse...

Gostei bastante dessa coluna do blog, não tinha lido nenhuma ainda, erro meu. Concordo com tudo que você falou, a intensão pode ter sido até boa, mas, de que adianta isso agora? Proibir a circulação do livro, não vai apagar a crueldade que foi o nazismo, nem a morte de milhões de pessoas. Acho que muita gente já ouviu falar sobre esse livro, entretanto, poucos, de fato leram, o que é o meu caso, cabe a cada um que decidir ler, não absorver nenhuma daquelas ideologias. O relato de Hitler, apesar de toda maldade, tem certo valor histórico para as sociedades humanas, é o retrato de como nenhum povo deve agir.
Abraços!
*Carolina*
http://florescerliterario.blogspot.com.br/
Ps: Desculpa, apaguei o outro comentário por acidente.

Carolina Garcia disse...

Oi, Alê!

Eu concordo com você. O livro é uma afronta aos direitos humanos sim, mas quem tem essa cultura irá continuar pensando assim com ou sem o livro.

Ou talvez importe o título de outro lugar.
Independente do assunto que estamos tratando, sempre irá existir um exemplar escondido.
E quando algo é proibido aumenta ainda mais a curiosidade, né?
Como exemplo da Lei Seca nos Estados Unidos que só aumentou a criminalidade e o mercado negro da época.

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Patrini Viero disse...

Concordo plenamente com o teu ponto de vista, a censura nunca é uma alternativa, ainda mais em se tratando de um tema de suma importância e que, como tu bem destacou, merece ser discutido, hoje mais do que nunca. Nossa sociedade ainda guarda seus preconceitos, e é precisa ter consciência disso, e não tentar fingir que somos corretos ou completamente fora de qualquer parâmetro existente de padrão. Em muitos aspectos a história realmente se repete, e é imprescindível obras como essa, para que vejamos o quão absurdo são os princípios ali escritos e defendidos.

Sil disse...

Olá, Alê.
Estou tomando conhecimento do ocorrido agora. Nem o livro em si eu conhecia. Mas discordo do juiz. É como você disse quem já se identifica não vai fazer diferença e é necessário sim esse tipo de obra para que ninguém esqueça o que aconteceu e não volte a se repetir.

Blog Prefácio

Jessica Lisboa disse...

Se for concordar com o juiz não deve se cortar historia das grades curriculares, é cada uma.

Minhas Impressões disse...

Olá, Alê.
Eu concordo com você. Não acho que proibir seja a melhor decisão, ainda mais da forma como está sendo, apenas no Rio de Janeiro. Não dá para apagar a História, temos que aprender com ela. Sem contar que isso pode ter o efeito contrário, porque como diz o ditado "proibido é sempre mais gostoso".
Abraços.
Minhas Impressões

marlene conceiçao disse...

Oie.
Concordo com você, que coisa, proibir a venda de um livro, é a primeira vez que vejo falar desse livro, mas com certeza me chamou a atenção, espero ainda ter a oportunidade de ler.

Fernanda Mendonça disse...

Oi!

Eu concordo com o que vc diz, sobre esse tipo de livro ser importante pelo cunho histórico e etc, mas ao mesmo tempo também entendo a proibição. Existe muita gente louca no mundo, e não duvido nada q surja alguém que queira uda esse livro como manual de incitação ao ódio e tal hahaha
Eu, particularmente, não leria esse livro.

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