terça-feira, 15 de março de 2016

Conversa de Contracapa #26

Há quem afirme não gostar de contos. Já fui dessas. Acredito que, no meu caso, isso vinha da minha afinidade com a literatura policial e o fato de que contos desse gênero tendem mesmo a não ter a graça dos romances, afinal, acabam sendo histórias mais simples, com menos reviravoltas, menos suspeitos, por se limitarem a um número menor de páginas.

Mas engana-se quem pensa que um conto é apenas uma história mais curta. Uma história mais simples. A verdade é que de simples o conto não tem nada, tanto que já ouvi autores renomados dizerem: “Escrevo romances. Nunca me arrisquei a escrever um conto, pois não tenho a técnica necessária para isso.” Isso porque o conto tem suas regras próprias.

O conto é uma arte própria dentro de uma arte mais abrangente, no caso a literatura. O conto é o auge da técnica narrativa. Isso porque seu número reduzido de páginas obriga o autor a enxugar o texto ao máximo. Isso não significa não contar a história toda ou reduzir os eventos que são contados e sim primar pela economia verbal, pelo corte de todas as palavras e comentários supérfluos. Já dizia o grande Ernest Hemingway (que, na minha modesta opinião, era um escritor de contos ainda melhor do que era de romances): “Um texto não está pronto quando você não tem mais nada para colocar nele e sim quando você não tem mais nada para tirar dele.” Assim, pode-se se dizer que o conto é texto lapidado ao extremo.

Além disso, o bom conto usa da história oculta. Parece ser sobre uma coisa quando na verdade é sobre outra e o leitor só percebe isso quando se dirige para o final.

É claro que as poucas páginas de um conto não podem aceitar o desenvolvimento de uma grande sequência de acontecimentos, não importa o quão econômico seja o texto. E é isso que me encanta nos (bons) contos. A habilidade dos autores de conseguir, às vezes em uma única cena, deixar clara a bagagem dos personagens e a maneira como suas vidas e relacionamentos vem se moldando há tempos. Um dos meus contos favoritos (provavelmente o que mudou o meu olhar sobre o assunto há alguns anos) é “Colinas como elefantes brancos” (ou “Colinas parecendo elefantes brancos”, em algumas traduções), de Hemingway. Nas breves páginas deste conto, acompanhamos um casal em uma viagem de trem. Uma única cena, composta em sua maioria pelo diálogo entre dois personagens, mas que deixa claro toda a história desse casal e do seu relacionamento, mesmo que em nenhum momento eles estejam falando sobre sua história e seu relacionamento. Na verdade, o assunto central do conto nem chega a ser mencionado (a palavra principal não é dita por nenhum dos personagens), mas é impossível não saber sobre o que eles falam. Está tudo ali, mesmo que não esteja. Hemingway pode não dizer, mas mostra. E é por isso que talvez o conto seja a arte que mais necessita e valoriza a máxima “Show, don’t tell” (mostre, não conte). O texto pode até ser curto, mas adquire o dobro do tamanho se o leitor souber apreciar as entrelinhas.

E já que falei em Hemingway, uma pequena historinha: Certa vez, o autor afirmou que conseguiria contar uma história com apenas seis palavras. Seus amigos duvidaram. Eis o que ele escreveu em um guardanapo: “Vende-se. Sapatos de bebê. Nunca usados.” Aí está. Em seis palavras conseguimos saber o que aconteceu com o bebê, quem vende os sapatos, a situação em que deve se encontrar essa família para vender esses sapatos. Pode não haver o desenvolvimento de uma história, mas com seis palavras Hemingway consegue até mesmo provocar emoção.

Então na próxima vez em que um livro de contos cair em sua mão, valorize. Ninguém disse que qualidade literária deve ser proporcional ao número de páginas e alguns desses contos podem ter mais conteúdo em suas entrelinhas do que certos best-sellers de 300 páginas tem em suas linhas impressas. 


23 comentários:

Theresa Cavalcanti disse...

Eu confesso que não sou de ler muitos contos. Já tentei, não sei se o problema foi dos que eu escolhi, mas não deu para mim.

Theresa Cavalcanti disse...

Eu confesso que não sou de ler muitos contos. Já tentei, não sei se o problema foi dos que eu escolhi, mas não deu para mim.

Aline Bronkhorst disse...

Mari, já ouvi mais gente falar das maravilhas dos contos do Hemingway. Aqui mais um incentivo pra embarcar nessa leitura.
E meu livro de contos favorito de longe é o Sagarana, do João Guimarães Rosa.

Beijos

www.booksimpressions.com.br

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Menina, você arrasou nessa conversa, viu? Sempre gostei de contos e quando escrevi o meu, achava que seria fácil. Ledo engano. Realmente mais lapidei meu texto do que escrevi! rs E tipo, foi muita coisa que tive enxugar... Em um momento, achei até que não conseguiria terminá-lo de "escrever". E o que acho ruim é que muita gente não valoriza os contos, pensam que são textos bobos e sem nexo... Mas enfim, adorei seu texto e espero que muita gente mude a opinião que têm sobre contos e ah, espero ler contos do Hemingway em breve.

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Eu curto muito contos, mas raramente leio. Confuso, não? Mas prometi pra mim mesma que iria ler mais contos esse ano.
Beijos
Balaio de Babados
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Porcelana - Financiamento Coletivo

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Eu gosto muito dos bons contos. Um conto bom de verdade é muito mais difícil e complexo de se escrever do que um livro. Afinal, como você bem disse, é difícil passar toda a bagagem dos personagens e do enredo em um número reduzido de páginas.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de reinauguração. Serão quatro vencedores!

Vanessa Vieira disse...

Gostei do post Mari. Curto muito contos, principalmente quando trazem uma abordagem específica. Beijo!

www.newsnessa.com

Diane disse...

Oie...
Eu adoro essa coluna do blog!!!
Acho sim que pode haver muitos contos bons, inclusive, acho que quem não gosta é porque ainda não leu um de qualidade... Brincadeira!
Sempre curti muito ler contos e os meus preferidos são do nosso grande Machado de Assis.
Beijos

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Mariana Gabriela disse...

Oii!

Adoro as discussões que você traz com essa coluna. Até um tempo atrás eu não lia contos, mas agora sou apaixonada. Amo ler contos que nos fazem refletir ou simplesmente rir.

Beijos!

http://apenasumaleitura.blogspot.com.br/2016/03/resenha-sombras-do-medo.html

Larissa Dutra disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Então, eu também não gostava de ler contos, por achar que ia faltar algo porque a história era pequena, mas me enganei. Tanto que o melhor livro que li mês passado, foi um conto. Um conto incrível, por sinal. Amo contos!

Beijos,
Duas Livreiras

Vida de Leitor disse...

Oi! Também não sou muito de ler contos, mas sei muito bem que vários carregam uma bela história em suas poucas linhas e entrelinhas, como você disse. Espero ter a oportunidade de ler algum(ns) em breve!
Beijos
Maria - doprefacioaoepilogo.blogspot.com.br

Sil disse...

Olá, Mari.
Gostei muito da postagem e do seu ponto de vista sobre os contos hehe. Eu particularmente não gosto de ler contos porque depois fico querendo saber mais sobre a história. Eu não escrevo, mais acredito que seja muito mais difícil escrever um conto do que um livro inteiro. Você tem que saber desenvolver para prender o leitor em poucas páginas. Acho que não é para qualquer um não.

Blog Prefácio

Gabriela CZ disse...

Confesso não ter o hábito de ler contos com frequência, Mari. Mas assim como você aprendi a apreciá-los com o tempo, aprendi a "ler nas entrelinhas". As vezes até romances curtos tem muito mais a dizer do que livros enormes. Ótimo post.

Abraços!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Laís Lubrani disse...

Adorei mais essa postagem querida! Eu AMO contos, adoro, adoro mesmo! <3
www.chadefirulas.com.br

Maria Silva disse...

Não gosto muito de contos. Mas gosto de livros. Poderia dar uma dica de leitura que estimule a inteligência.

mariadadicas.blogspot.com

Cris Setúbal disse...

Arrasou no texto!!!! Realmente, escrever um conto deve ser muito complicado, colocar tudo o que se quer em poucas páginas não deve ser nada fácil. Gostei do conto que você sugeriu, já anotei e vou procura-lo para ler. Se eu for parar pra pensar, eu também não leio muitos contos, mas depois desse seu texto, vou tentar aproveitar e ler mais. Novas experiências são sempre bem vindas!! Beijo :)

Gabrielle Batista disse...

Eu não leio muito os contos. Mas dependendo da história, vale a pena abrir uma exceção. E concordo que ele pode ser bem melhor e possuir mais conteúdo, do que um livro que a gente sempre cria ótimas expectativas, mas acaba se decepcionando.

RUDYNALVA disse...

Mari!
Sempre fui encantada pelos contos.
Eles são mais sucintos, porém não menos envolvente que romance.
E quando bem escritos, melhor ainda, mostram toda emoção do autor.
“A bondade deve estar ligada ao saber. A simples bondade pouco adianta; é o que tenho constatado.” (Mahatma Gandhi)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Carolina Garcia disse...

Olá, Mari!

Hemingway está entre minha lista de leituras desejadas. Ainda não consegui conciliar entre parcerias e tudo mais, mas tenho uma curiosidade grande por ele.

Também tive/tenho certo problema para ler contos, mas acabo lendo se a premissa me atrair. Já encontrei contos bons e outros ruins. Assim como livros em geral.

Acho importante a gente sair do nosso conforto e ler algo diferente só para aprender mais.

Bjs!

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Minhas Impressões disse...

Olá, Mari.
Eu era uma das pessoas que torcia o nariz para os contos, até que ano passado, eu conheci a obra de Raymond Carver e me apaixonei completamente pelo gênero.
Esse semestre, vou estudar conto na faculdade e estou ansiosa.
Abraços.
Minhas Impressões

Jess Sena disse...

Oi Mari, tudo bem?
No começo também ficava com um pé atrás pra ler contos.
Acho que não gostava da diferença de narrativa, um livro de vários contos (os primeiros que li) as vezes incomodava mas hoje aprecio demais.
Gosto de procurar contos na Amazon, sempre tem histórias sensacionais no KindleUnlimited. São ótimos também em momentos de ressaca literária, pra ir voltando ler aos poucos.
Não li o conto que você citou, vou procurar :D
Bj


@saymybook
saymybook.blogspot.com

Jess Sena disse...

Oi Mari, tudo bem?
No começo também ficava com um pé atrás pra ler contos.
Acho que não gostava da diferença de narrativa, um livro de vários contos (os primeiros que li) as vezes incomodava mas hoje aprecio demais.
Gosto de procurar contos na Amazon, sempre tem histórias sensacionais no KindleUnlimited. São ótimos também em momentos de ressaca literária, pra ir voltando ler aos poucos.
Não li o conto que você citou, vou procurar :D
Bj


@saymybook
saymybook.blogspot.com

suzana cariri disse...

Oi!
Gosto muito dos contos mesmo não sendo algo que leio muito, pois concordo que escrever um bom conto e bem difícil como são menos paginas o autor tem que consegui prender o leitor e passar o que pretendo em poucas paginas e para mim o mais difícil dos contos são os finais que tem que fechar a historia e quero ler o conto do Hemingway !!

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