domingo, 17 de abril de 2016

RESENHA: Os Vestígios do Dia

Os Vestígios do Dia Kazuo Ishiguro
Há 30 anos Stevens serve como mordomo na mansão Darlington Hall. Seus primeiros anos de serviço foram dedicados a Lord Darlington e agora ele serve a Mr. Farraday, um rico norte-americano. É por sugestão de seu atual patrão que, no verão de 1956, ele tira uma semana de férias, partindo em uma viagem de carro rumo ao encontro de Miss Kenton, uma antiga colega de trabalho que lhe escreveu há pouco tempo falando sobre a insatisfação que sente em relação a seu casamento.

“Os Vestígios do Dia” é um trabalho primoroso de narração. Stevens, seu narrador-protagonista, olha o tempo todo para o passado, focando em acontecimentos de sua vida como mordomo e das coisas que presenciou a serviço de Lord Darlington. A vida inteira, devido a sua profissão, Stevens se acostumou a estar pronto para servir e a ficar invisível quando não se fazia necessário. Por isso é fácil entender porque o personagem fala pouco sobre si – sobre seus desejos e sentimentos – mas é impossível dizer que a narrativa se trata de outra coisa que não ele. Enquanto discorre sobre a casa, sobre o patrão a quem tanto admirava, sobre as exigências de seu cargo (todas coisas que sempre estiveram em primeiro plano para ele), o personagem, sem perceber, se revela e se coloca em primeiro plano para o leitor mesmo que fosse um mero coadjuvante em quase todos os eventos que relata.

Apesar de o tempo da narrativa se dar durante os dias da viagem do protagonista, os acontecimentos desses dias são quase irrelevantes, já que o relato de Stevens foca mais em suas lembranças do que no que lhe acontece agora. Na verdade, “Os Vestígios do Dia” é um livro escasso em acontecimentos, afinal Stevens nunca esteve no centro dos episódios que relata, de forma que não vemos o desenrolar daqueles eventos (e suas consequências de fato pouco importam para o leitor). Tudo que vemos é o olhar de um homem que, na verdade, evitava olhar, pois sabia que estava ali apenas para fazer o seu trabalho.

“Olhando em retrospecto a minha carreira até aqui, minha maior satisfação vem do que conquistei naqueles anos, e, hoje, tenho nada mais que orgulho e gratidão por ter desfrutado de tal privilégio.” (ISHIGURO, p. 143, 2016)

Stevens é um personagem maravilhoso. Sua existência está totalmente entrelaçada a sua profissão. Ele não é um homem e sim o mordomo de Darlington Hall, tanto que agora, na única vez em que se afastou dos seus deveres (algo que só fez pelo estímulo do patrão e na expectativa de reencontrar uma antiga colega de trabalho para trazê-la de volta para a casa) ele parece não saber como ser simplesmente ele mesmo e seus pensamentos se voltam sempre à casa e a Lord Darlington. Além disso, tudo em sua narrativa mostra o seu comportamento como mordomo, já que cada palavra revela o quão ponderado, comedido e discreto ele é. Isso se aplica até mesmo aos seus sentimentos em relação a Miss Kenton. É transparente para o leitor que Stevens tem sentimentos românticos para com ela, mas em nenhum momento o personagem fala sobre isso ou chega a dar algum indicativo sobre se ele mesmo tem consciência disso. Isso reforça o fato de que Stevens não teve uma vida e sim uma carreira (e as duas coisas se confundem completamente para ele).

Sou da opinião que conjugar verbos na primeira pessoa do singular não é o suficiente para um narrador em primeira pessoa (não um eficiente, pelo menos). É preciso que o autor saiba fazer seu leitor ver o mundo pelos olhos do personagem e isso é muito mais importante do que fazer o personagem falar sobre si. É aquela velha história “mostre, não conte”. Ishiguro faz isso maravilhosamente bem.

Outro mérito da narrativa do autor é que, mesmo criando uma trama em que as coisas se revelam nas entrelinhas e os acontecimentos são escassos, a leitura é surpreendentemente fluida.

“Os Vestígios do Dia” tem um tom melancólico e nos lembra que somos a soma das nossas escolhas, do que fazemos e do que deixamos de fazer. Em 1989, o livro foi vencedor do Booker Prize e em 1993 inspirou o famoso filme homônimo estrelado por Anthony Hopkins e Emma Thompson.

Esta edição faz parte do novo projeto gráfico que a editora Companhia das Letras tem dado às obras de Kazuo Ishiguro e conta ainda com o breve conto “Depois do Anoitecer” sobre um homem que retorna à aldeia onde viveu quando jovem e onde era uma figura de destaque, mas agora é recebido como nada mais que um velho. Confesso que o conto, porém, não me cativou muito.

Título: Os Vestígios do Dia
Autor: Kazuo Ishiguro
N° de páginas: 285
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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23 comentários:

Camila Carvalho disse...

Sou apaixonada por leitura que fluí bem, e pelo visto essa certamente me conquistaria facilmente.
A resenha ficou ótima.
Beijo

www.tecontopoesia.com

Bruna Lago disse...

Oi Mari, uma resenha ótima como sempre.
Eu fui lendo e percebi que nunca li nada parecido com esse livro. Me parece uma história muito interessante de um homem que passa seus conhecimentos e que querendo ou não, acaba se apresentando, como você disse. Essa viagem deve ter sido necessária para o decorrer da historia.
Bom dia!

Maria Fernanda Pinheiro disse...

Também fiquei satisfeita com a leitura, não esperava nada do livro mas fiquei encantada quando percebi que já estava quase o terminando, a leitura é rápida e a história colabora, amei o modo de descrever os fatos que o autor utilizou, indico para todos, principalmente para aqueles que procuram explorar ainda mais a literatura e suas formas

Thalita Branco disse...

Olá Mari!
Tenho muita curiosidade em ler algo do autor e com certeza vou começar por esse Sua resenha me lembrou muito a série Downton Abbey. Parece ser uma leitura sensível do jeito que eu gosto.
Bjs

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Nana Barcellos disse...

Oi Mari,
Ótima resenha, não conhecia o livro, mas fiquei super curiosa.
Ler sobre o protagonista me fez pensar nos empregados da série Downton Abbey que nem a moça de cima. Então, capaz de eu curtir.

E não tinha conhecimento do filme.

tenha uma ótima semana.
Nana - Obsession Valley

Diane disse...

Oie...
Com uma resenha dessas é impossível não querer ler o livro!
Leituras fluídas me agradam muito... Fiquei curiosa em relação a história e decididamente vou ler!

http://coisasdediane.blogspot.com.br/

Cabine de Leitura disse...

Olá Mari;
Sua resenha está perfeita, que nos faz compreender o enredo, mesmo sem ler.
Confesso que este estilo de leitura não me agrada muito, mas não desconsidero..

Beijos a você e pro Alê.
http://cabinedeleitura1.blogspot.com.br

Jessica Andrade disse...

Oi Mari,
Adorei a resenha, mas confesso que não faz muito meu tipo de leitura :(
Bjs
http://diarioelivros.blogspot.com.br/

Sil disse...

Olá, Mari.
Inicialmente esse seria um livro que eu nem olharia duas vezes. Mas vendo você falar assim do livro, e do personagem principal, não tem como a gente não querer conferir essa história. Não conhecia o livro, nem o filme, mas deixei anotado aqui para ler.

Blog Prefácio

Aline Al disse...

Oi, Mari!
Adorei a sua resenha, apesar de livros melancólicos não serem muito o que eu gosto de ler, esse parece ser muito bom.
Beijos!
Borboletas de Papel | Fanpage

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Os Vestígios do Dia é uma obra bem diferenciada. Primeiro porque nunca li nada onde o mordomo narrasse. Deve ser interessante acompanhar como a vida de uma pessoa pode ser tão moldada pela profissão. Ademais, esse tom de melancolia que engloba a obra tem tudo para me agradar; amo livros assim.
ótima resenha.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de abril. Serão três vencedores!

Gabriela CZ disse...

Não conhecia o livro, Mari... Mas gostei da premissa e de seus comentários. Me parece que apesar de não ter grandes momentos de ação é uma história cativante. Darei uma olhada. Ótima resenha.

Beijos!

Theresa Cavalcanti disse...

Esse livro não faz muito meu estilo de leitura :/ Mas quem sabe um dia eu mude de ideia em relação a isso.

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Desse autor eu só conheci O Gigante Enterrado que estou doida para ler. Sei lá, eu gosto de livros melancólicos acho que esse tipo de narrativa nos faz abrir um pouco a mente.

Gostei da premissa de Os Vestígios do Dia, justamente por que quanto mais me sinto como o personagem da história que estou lendo, mas acabo gostando dela. E pela sua resenha percebo que é justamente o que acontece aqui.

Dica mais que anotada!


Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Amei sua resenha, mas não sei se leria esse livro. Ele parece ser meio monótono.
Beijos
Balaio de Babados

Teca Machado disse...

Oi, Mari!
Nunca li nada do autor, mas a sua resenha foi tão linda.
Não parece realmente ser um livro corrido, com ação e cheio de acontecimentos, mas parece doce a sua maneira, com a narração tão instigante do protagonista.
Muito bacana! Gostei.

Beijooos

www.casosacasoselivros.com

Bianca Sampaio disse...

Oi Mari!
Não conhecia o livro, mas sua resenha me deixou cativada pela história e fiquei curiosa para conhecer a narrativa do autor.

Beijos,
Epílogos e Finais

Sávio França disse...

Olá, Mari.
Não conhecia "Os Vestígios do Dia", mas também confesso que não fiquei muito cativado pela narrativa.
Apesar disso, fiquei bem curioso a respeito da narração do livro. Achei interessante.

Abraço!
http://tudoonlinevirtual.blogspot.com.br/

Silviane Casemiro disse...

Oi, Mari. Não conhecia este livro, mas um detalhe do seu texto que acabou me deixando até curiosa em realizar a leitura. Quando você diz que o personagem diz pouco sobre si, sabe? É interessante por ele ser o narrador da história. Acho que é uma leitura diferente neste aspecto, conhecer o personagem mas de outra forma que não a comum. Beijos
Sil - Estilhaçando Livros

Camila Monteiro disse...

Uau, me conquistou completamente! Eu li TERRA DE GIGANTES dele (é esse o nome) e não curti, mas há tempos queria ler outra coisa do autor e aqui encontrei.
Fiquei interessada por ter adaptação tb.
Vou procurar pela obra. Valeu a dica.

>> Vida Complicada <<

Marlene Conceição disse...

Oi Mari...

O livro Me parece ser muito bom, com uma premissa bem interessante achei a narrativa bem diferente, o modo como o mordomo se sente sobre a dama, mas sem falar muito a respeito disso, acho que esse fato se dar a ele ser muito discreto, o que praticamente é exigido em sua profissão.
Gostei bastante, vou ler com toda certeza.
Boa Tarde.

Carolina Garcia disse...

Olá, Mari!

Gostei muito da sua resenha. Me chamou atenção por conta de um personagem tão interessante.
Mas infelizmente no momento não posso comprar novos livros. u.u
É tão triste quando isso acontece porque parece que surge mais obras interessantes! Hahahaha

Mas vou anotar a dica para o futuro com certeza. :)

Bjs

livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Mariana Ogawa disse...

eu já tinha escutado falar dessa obra, mas muito por cima. pela primeira vez eu li uma resenha
é bem diferente dos livros que eu ando lendo e traz várias reflexões sobre as nossas vidas e escolhas. me fez lembrar uma matéria que eu li uma vez sobre os invisíveis da sociedade
anotar a dica para quando eu puder eu ler

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