domingo, 26 de junho de 2016

Quem vem para o jantar? #25

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Não havia tempo de comprar um livro novo, mas o tempo que havia era mais do que suficiente para me deixar entediada. Ali, naquela sala de aeroporto, depois que a leitura que eu tinha em mãos havia acabado e abrir a mala estava fora de cogitação (tinha sido mesmo uma ideia brilhante guardar os outros livros embaixo de tudo), não me restava mais nada a fazer a não ser observar o que acontecia ao meu redor. Nada de interessante, claro. Desde quando acontece algo interessante em uma situação como essa?

Ainda assim encontrei um ponto de interesse. Separado de mim por um única cadeira vazia, um homem lia “A Sombra do Vento”, um dos meus livros favoritos, e eu fiquei imediatamente curiosa para saber em que trecho do livro ele estava. Será que estava apreciando a leitura tanto quanto eu? É claro que eu não faria nenhuma dessas perguntas (não sou do tipo que puxa conversa com estranhos em salas de aeroportos, por melhor que sejam os seus gostos literários), mas o mais estranho era que eu tinha certeza de já ter visto aquele homem antes. Quem era ele? Obviamente eu não podia ficar encarando, mas eu tinha certeza que conhecia aquele rosto. Bom, pelo menos a brincadeira de reavivar a memória me distraída do tédio da situação.

Foi então que um outro homem chegou e sentou na cadeira que me separava do tal leitor, iniciando no mesmo instante uma conversa animada não comigo, mas com ele. Acho que parei de respirar. Para o meu espanto, ali, sentado ao meu lado, estava ninguém mais, ninguém menos que Carlos Ruiz Zafón! E não era para menos o ânimo da conversa, afinal, ele estava falando com Patrick Modiano! É claro! Por isso aquele rosto me era tão familiar. Mas que espécie de leitora eu sou para não reconhecer que estou ao lado de Patrick Modiano? Eu não sabia se saia correndo para comprar livros para eles autografarem ou de vergonha. Achei que era melhor me acalmar e ouvir a conversa.

- Estou encantado com a poesia das suas palavras – dizia Modiano - Você tem uma maneira fascinante de contar histórias. E que história! Há tantos gêneros aqui que eu nem saberia classificar o livro.
- E que importância têm as classificações?
- Você tem toda a razão. E me agrada muito essa mistura de aventura com drama, de amor e amizade. E, claro, o mistério.
- Acho importante ter uma pitada de mistério. Não necessariamente algo sobrenatural como, por vezes, acontece nas minhas histórias, mas misterioso de alguma forma. Como os seus personagens que sempre desconhecem alguma coisa, estão em busca de algo. Nos seus livros, tudo acontece de maneira tão orgânica e nem sempre sabemos para onde estamos indo. Acho fascinante. E por falar em “para onde estamos indo”, para onde você está indo?
- Para Barcelona e se você quer saber, a culpa é toda sua.
- É mesmo? – perguntou Zafón rindo, orgulhoso – Por quê?
- Impossível não ficar com vontade de conhecer os lugares que você menciona. Você faz tudo parecer tão mágico e encantador que programei essa viagem no instante em que terminei de ler “O Jogo do Anjo”.

A essas alturas eu tinha vontade de abraçar Modiano por dizer a Zafón tudo aquilo que eu queria dizer.

- Mas então você vai gostar de saber que eu estou indo para a sua Paris.
- Não diga! Que coincidência nos encontrarmos assim: um indo para a cidade do outro.
- Mais coincidência ainda é que eu também decidi viajar graças aos seus livros.

Para a minha completa decepção, o meu voo foi chamado. E eu nem havia conseguido criar coragem de falar com os autores. A última coisa que ouvi antes de levantar, foi Modiano perguntar qual havia sido a intenção de Zafón com “O Jogo do Anjo”.

- Espero que não se ofenda, mas eu não entendi aquele livro.
- Ofensa? Acho que eu deveria considerar uma honra confundir a cabeça de um prêmio Nobel – respondeu Zafón, bem-humorado - E acredite, você não é o primeiro a me dizer isso. Mas proponho o seguinte: meu voo está atrasado, de forma que tenho tempo de sobra. Se você também tiver e me pagar um jantar, conto para você.

Quase desisti da minha viagem. Lá se ia a minha oportunidade de, finalmente, descobrir o que passava pela cabeça de Zafón quando escreveu o único dos seus livros que me decepcionou e que, francamente, até hoje não entendi. Andei alguns passos em direção à fila e desisti. Haveria outros voos, mas aquela era uma oportunidade única! Minha curiosidade literária falou mais alto e fui correndo atrás dos autores. Agora me restava descobrir que lugar eles haviam escolhido para o seu jantar.

11 comentários:

Gabriela CZ disse...

Que maravilha essa história, Mari! Sempre me surpreendo com sua criatividade. E nossa, como queria estar nesse aeroporto e ouvir Zafón dizer qual afinal de contas é o segredo de O Jogo do Anjo porque também não entendi! Quer dizer, entendi mas não compreendi. Enfim, ótimo texto.

Beijos!

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Eu amo essa coluna. Sempre curto suas histórias.
Beijos
Balaio de Babados
Participe da promoção de aniversário do blog Crônica sem Eira

Desbravador de Mundos disse...

Olá, Mari.
Adorei esse conto. Envolvente e maravilhoso, sem dúvida. Fiquei imaginando aqui encontrar, em um aeroporto, dois autores tão maravilhosos. Acredito que teria um treco. haha
Ótima postagem.

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de junho. Serão quatro livros e dois vencedores!

Somos Visíveis e Infinitos disse...

Ameeeei o texto!
Beijos
Vídeo novo: https://www.youtube.com/watch?v=z9vSLbBv-LE
www.somosvisiveiseinfinitos.com.br

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Adorei o texto. Imaginei se pudesse encontrar dois autores incríveis no aeroporto, rambém abriria mão do voo - se tivesse essa escolha! Hahahaha

Bjs

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Ariane Reis. disse...

Oie Mari =)

Que delicia entrar aqui no blog e ler um conto seu *-*
Você é muito talentosa viu! Escreva mais, por favor.

Beijos;***

Ane Reis.
mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
@mydearlibrary

Rafaela. disse...

Oi, Mari!

Seus contos são tão palpáveis que fico com a sensação de que aconteceram de verdade. Este foi um dos meus favoritos, adorei a conversa entre Modiano e Zafón.

Beijocas.
http://artesaliteraria.blogspot.com.br

Camila Monteiro disse...

Puta merda!!!!! Eu vibrei aqui na minha cadeira! Imagina vc lá, ao lado deles. Eu teria tirado fotos, com certeza.
A única pessoa famosa que já vi assim foi o César Menoti (argh)😠
Kkkkk
Queria estar bo seu lugar!

>> Vida Complicada <<

Jessica Andrade disse...

Oi Mari,
Adorei o conto e fiquei imaginando eu ali naquela situação.
Parabéns.
Bjs e uma ótima noite!
Diário dos Livros
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Ana I. J. Mercury disse...

Que conto fascinante!
Eu amei, me vi ali, lendo a conversa também!
Fantástico!!
Parabéns!
Escreve a continuação??? POR FAVOR!!!
bjs

suzana cariri disse...

Oi!
Adorei a historia ela me deixou curiosa no começo e intrigada no final, uma ótima historia que conseguiu me prendendo !!

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