sábado, 1 de outubro de 2016

Quem vem para o jantar? # 27

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

O estampido alto e o súbito aparecimento do ônibus assustou alguns dos convidados que aguardavam conosco. Era compreensível. Eles nunca haviam visto um meio de transporte tão peculiar quanto aquele (e certamente nunca haviam andado em um antes). Nós mesmos estávamos apreensivos, mas tínhamos a vantagem de saber o que nos esperava. Já Poirot deu um salto espalhafato e quase perdeu o equilíbrio. Como bons anfitriões, tentamos controlar o riso. Já Fred e Jorge Weasley não se esforçaram em fazer o mesmo. Compreensível. Poirot já é uma figura engraçada por si só. Pulando de susto e tentando manter a elegância ao mesmo tempo tornou-se impagável.

— Fique tranquilo, Poirot. — disse Fred, percebendo a hesitação do detetive em entrar — O NightBus Andante é mais seguro do que parece. 
— É. Além disso, o que é um motorista imprudente quando já se enfrentou assassinos de todos os tipos, não é mesmo? – completou Jorge.
— Isso não ajudou em absolutamente nada, Monsieur.
— Vamos lá Poirot – incentivou Jane Eyre – Onde está o seu espírito de aventura?
— Aventura, Mademoiselle? Já estou velho demais para isso.

Por um momento nos preocupamos que Poirot fosse desistir de comparecer a nossa comemoração de aniversário, mas sabendo o quanto a sua presença era importante para nós, ele deu um voto de confiança e entrou no veículo roxo, auxiliando Jane Eyre a embarcar também. Ela, por sua vez, parecia encantada com a ideia de andar em um ônibus mágico.

Assim que embarcamos, Ernie, o motorista do NightBus Andante, nos perguntou qual seria nossa próxima parada.

— Nairobi. Precisamos pegar John Perry, que conseguiu uma licença das Forças Coloniais de Defesa. Ele desce no Pé-de-Feijão das 09h.

E sem responder, Ernie arrancou o NitghBus com um solavanco que nos jogou para trás e fez Poirot respirar fundo. O veículo continuou acelerando até que um portal surgiu e de repente os raios de um sol escaldante entraram pelas janelas. Quando levantamos, Poirot não conseguiu conter sua pergunta:

— Por que, em nome de Deus, vocês alugaram esse ... esse... — e olhando em volta sem saber como descrever, completou: — essa máquina saída de algum conto de terror e pronta para matar a todos nós?
— Deixe de ser ranzinza, Hercule e trate de aproveitar a viagem. — retrucou Jane, tentando esconder o riso.  Você não percebe que a festa já começa agora?

Explicamos ao detetive que nossos convidados estavam espalhados pelo mundo e que para não causar o transtorno de fazer todos viajarem de avião, o NightBus seria a melhor opção. Além disso, não nos custaria nada, pois foi a própria J.K. Rowling quem nos emprestou, abrindo exceção para que trouxas andassem no veículo.

— Trouxas? — agora era Jane que não parecia satisfeita. — Como assim “trouxas”?
— Quem não nasce bruxo. — responderam os gêmeos em uníssono.
— Ah...certo. 
— Além do mais, JK sabia que se alguma coisa desse errado, nós poderíamos ajudar já que temos uma larga experiência com NightBus e Ernie – explicou Fred.
— Se alguma coisa desse errado?! O que poderia dar errado?!
— Esse, Poirot, é o tipo de pergunta que não irá nos levar a lugar nenhum  respondeu Jorge.
— Pé-de-feijão. — gritou Ernie.

John Perry já estava nos aguardando e olhou admirado para o nosso meio de transporte.

— Isso que é viajar com estilo. — disse ele assim que embarcou.
— Próxima parada? — gritou Ernie, sem nos deixar responder ao nosso convidado.
— Moscou. Precisamos buscar Sidney e Adrian.
— O que aqueles dois estão fazendo em Moscou? — perguntou Fred.
— Eles não entraram em detalhes. Adrian deixou escapar que foi Lisa quem os mandou para lá em algum tipo de missão, mas depois disso foi Sidney quem pegou o telefone e você sabe que ela não entrega nada. E falando em missão, como vai a vida no espaço, capitão?
— Corrida. — respondeu John sucintamente.
— E o que as Forças Coloniais de Defesa andam aprontando lá em cima?
— Não posso responder. Esta informação é secreta.

A decepção foi palpável, pois todo mundo queria mais detalhes sobre as batalhas travadas pelas FCD.

— É verdade que existem raças alienígenas do tamanho de baratas?
— Infelizmente, também não posso responder.
— Tem alguma coisa que você possa contar?
— Sim. Você não imagina como é bom tirar uns dias de férias para encontrar amigos queridos. Vocês têm ideia de quando foi a última festa de aniversário que fui?
— Você já esteve em alguma das festas deles? — perguntou Jane — Não lembro de você.
— Nunca. Nos conhecemos esse ano, não foi mesmo?  — comentou ele, ao que concordamos com um aceno de cabeça e um sorriso.
— Então você vai adorar. São sempre noites memoráveis.

Para a nossa sorte, o Nightbus andante se mostrava tão eficiente quanto prometido e logo chegamos a Moscou, onde Adrian e Sidney embarcaram.
— Nossa, o que aconteceu com vocês? — perguntou Jane, se referindo a aparência abatida deles.
— É bom ver você também. Você também está muito bonita — respondeu Adrien em tom de brincadeira.
— O trabalho foi um pouco mais exaustivo do que a gente esperava – explicou Sidney.
— O que, exatamente, vocês estavam fazendo?
Adrian e Sidney se olharam, e George não esperou a resposta:
— Deixa eu adivinhar: vocês também não podem contar.
O casal apenas meneou com a cabeça.
— Quantas missões secretas por aqui. — murmurou Jorge audivelmente.

Alguns minutos depois chegamos em Santa Fé onde o Capitão Rodrigo Cambará embarcou devidamente pilchado, trazendo um violão à tiracolo e um chimarrão para a viagem.

— Buenas! Toma um mate? — ofereceu o capitão a Poirot que, educadamente, recusou, fazendo Adrian rir. Estava claro que o pequeno belga jamais dividiria a cuia com outra pessoa.
— Eu encaro — respondeu Fred. Porém, seu arrependimento ficou claro no primeiro gole: — Credo, que negócio amargo é esse? Até parece um feijãozinho de ovo podre.
— Ovo podre?! – perguntou Sidney espantada. 
— E você diz que a minha comida é ruim – defendeu-se Adrian — Na próxima vez em que você reclamar é feijãozinho de ovo podre para você, Sage.

Quando o NightBus arrancou rumo à última parada, ouvimos o capitão comentar com Poirot:

— Meu Deus do céu, mas que geringonça é essa? Até parece que estou domando um potro chucro.
— Entendo o que o senhor quer dizer, Monsieur. Mas acredite em Hercule Poirot, logo o senhor se acostuma.
Joyland! – anunciou Ernie.


Descemos na frente de nossos convidados e fomos todos recepcionados por Speedy, um robô cedido pela U.S. Robots & Mechanical Men, que estaria nos servindo naquela noite.

— Espumante, vodka, cerveja amanteigada?
— Eu aceito um de cada — disse Adrien ligeiro.
— Eu também  acrescentou o capitão Rodrigo  Quero saber qual é a dessa tal cerveja.

Foi quando ouvimos uma voz animada.

— Vocês chegaram!  era Alaska, que claramente já não estava na sua primeira taça de espumante  Que ideia genial fazer a festa em um parque de diversões.
— Achamos que vocês iriam gostar. Quase tivemos que desistir porque estava muito difícil de conseguir data. Por isso tivemos que atrasar um pouco a festa, mas achamos que valeria a pena. No ano passado, Jane Austen reclamou que nós sempre escolhíamos lugares assustadores. Dessa vez, resolvemos escolher um lugar livre de quaisquer possíveis traumas.
— Onde vocês foram antes?  quis saber John Perry
— Teve o Hotel Overlook, a Ilha do Negro....
— É, mas na Ilha do Negro quem levou os maiores sustos fomos nós mesmos.
— Por quê? Strigois?  quis saber Sidney
— Sage, desliga o modo alquimista, por favor. Estamos em uma festa.
— Poirot, você quer explicar o que a Agatha nos aprontou da última vez enquanto nós vamos ali ver alguns detalhes com o Speedy?

Deixamos o grupo envolvido com a narrativa de Poirot e fomos ao encontro do nosso robô para ver se tudo estava saindo conforme o planejado. 

Com os nossos convidados, tudo corria bem. Depois de testemunhar a animação de Fred e Jorge, Jane e John se aventuravam na roda gigante.

— Espere até o nosso pai saber que andamos em uma dessas  exclamaram os gêmeos  Ele é fascinado pelas invenções dos trouxas.
— Trouxas? – perguntou John
— Quem não nasceu bruxo  dessa vez foi Jane quem explicou.

Foi então que os balões se soltaram, enchendo o céu de cores. Enquanto todos acharam lindo, nós nos olhamos com estranheza e perguntamos baixinho um para o outro:

— Foi você que organizou isso?
— Não. Achei que tinha sido você.

Nem deu tempo de pensarmos no que poderia estar acontecendo, quando um grito agudo aterrorizador cortou o ar. No mesmo instante, o Capitão Rodrigo correu em direção ao som que se repetia, cada vez mais alto, cada vez mais desesperador. Até que tudo o que restou foi silêncio. Quando chegamos em frente a tenda de Madame Fortuna, encontramos o corpo de Alaska ensanguentado. Jane, ao ver a cena, quase desmaiou, mas o Capitão Rodrigo prontamente a amparou. 

— Quem pode ter feito algo assim? — lamuriou-se ela.
— Excuse moi, madames e messieurs. — exclamou Poirot com autoridade, andando em direção ao corpo e começando a analisar as evidências. Na mão de Alaska, o detetive encontrou um bilhete em que estava escrito “I <3 Derry” em vermelho escuro. Sentimos um frio na espinha paralisante:

Pennywise — murmuramos em uníssono. 
— Quem? – quis saber Jane
— Pennywise. O palhaço assassino de Derry. 
— Porque vocês convidaram um palhaço assassino para a festa? Os inofensivos não estavam disponíveis? — perguntou Adrian, debochado como sempre, e logo em seguida acrescentou: — Cadê os gêmeos? 

Olhamos ao redor e constatamos que, com exceção de Fred e Jorge, estávamos todos reunidos ao redor de Alaska. 

— Será que aconteceu alguma coisa com eles também? — perguntou John
— Eu não vejo os dois há um bom tempo — respondeu Jane
— Poirot, o que você estava falando sobre o caso da Ilha do Negro? — perguntou Sidney, sempre atenta aos detalhes.
— Isso lá é hora para causos, guria? – criticou o Capitão Rodrigo — Temos um assassino à solta. Precisamos nos defender.
— Não, capitão — explicou Sidney — O senhor não entendeu. O que eu quis dizer é que...
— É claro! — respiramos aliviados. — Isso só pode ser uma peça! E querem saber? Só pode ser coisa do Stephen King. Ele disse que encontraria uma forma de comemorar com a gente. 
— Quer dizer que eu não convenci? — perguntou Alaska se levantado abruptamente do chão e nos dando o maior susto. 

Mas antes que pudéssemos responder, os fogos começaram e logo vimos as vassouras dos gêmeos fazendo piruetas no ar. Imediatamente todos começaram a aplaudir. 

— Vocês não acharam que ficariam sem um toque Weasley nessa festa, acharam? São 5 anos! É preciso comemorar em grande estilo!
— Nós não poderíamos concordar mais. Acontece, Fred, que mesmo o maior dos nossos estilos não se compara ao de vocês.
— Por acaso vocês estavam de conluio com o King nessa?
— Alguém falou em pregar peças e vocês acharam, realmente, que a gente ia ficar de fora? 

Nem era preciso responder. 

A noite chegou ao fim e nada melhor para nós do que ver o sorriso de satisfação no rosto de cada um dos nossos convidados. 

— O NightBus vai nos levar de volta? – perguntou Poirot
— Olha só quem pegou gosto pela coisa – retrucou Jane com um sorriso nos lábios. 
— Na próxima levo vocês para os pampas e asso um belo de um churrasco. 
— Vamos lhe cobrar, Capitão. 
— Pode cobrar. Palavra de honra!

Acompanhamos os nossos convidados até o embarque e ficamos para trás para ter uma conversinha com Mr. King e pedir explicações por quase ter nos matado de susto. Nosso mais pavoroso e melhor presente.  


17 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Gente, eu amei esse jantar! Com certeza se tornou um dos meus favoritos que li ali.
Beijos
Balaio de Babados
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Gabriela CZ disse...

Como eu amo os jantares de vocês, Mari e Alê! Adorei os personagens, o meio de transporte, as circunstancias... Tudo! Excelente.

Beijos!

Day Morais disse...

Haha, adorei gente!!!! Amei!! Beijos!!

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RUDYNALVA disse...

Alê e Mari!
Sempre com comemorações dignas do Além da contracapa... Parabéns!
Apenas um se não...
Faltou passar em João Pessoa e pegar Rudynalva para participar da comemoração. Todos os anos aguardo o convite...kkkkkk
“A sabedoria é um adorno na prosperidade e um refúgio na adversidade.” (Aristóteles)
cheirinhos
Rudy
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Carol Espilotro, disse...

DHSAUKHDKUSAHDKAH que divertido!!!!! Foi super legal ler seu conto :p apesar de ter visto o NightBus, não esperava Fred e Jorge!

Bjs, Carol | Espilotríssimo
http://carolespilotro.com

Teca Machado disse...

Ameeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei!!!!
Hahahaha
Caramba, eu queria andar no Nightbus.
Peraí, queria mesmo?
Ainda mais em tão boas companhias!
Eu não li os outros textos. Preciso ler todos!!!

Beijoooos

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Desbravador de Mundos disse...

Olá, Ale. Olá, Mari.
A criatividade de vocês é sem tamanho. Gostei demais do texto. Aliás, meus olhos brilharam ao ver o nome John Perry. Adoro demais Guerra do Velho.
Amei a postagem!

Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de outro. Serão dois vencedores, dividindo 5 livros.

Cristiane Dornelas disse...

Sidney e Adrian! Alaska! Nossa, quantos personagens, quantas informações de outros livros xD
Ficou muito criativo e interessante. Podia dar um livro de encontros literários =P

Caverna Literária disse...

Meu deus, vocês são demais! Não tinha visto essa coluna ainda e fiquei de queixo caído com a criatividade de vocês em citar vários livros numa narrativa. Simplesmente amei!!!

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Alê e Mari, tudo bem?

Adorei a história e ri no trecho do Stephen King rsrsrs E adorei ver a Jane Eyre tb <3 Parabéns! Tá bem demais <3

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Tony Lucas disse...

Oi, Mari e Alê! Tudo bem? Ah, eu adoro essa coluna! <3 Dessa vez eu não conhecia quase ninguém rs Com exceção, claro, de Stephen King e Poirot. Adorei a participação dos dois! <3 E a história ficou sensacional. Parabéns! :)

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

-Lunii † disse...

Olá, tudo bom?
Cara, que texto mais divertido dkjdjd.
A criatividade foi demais. Cara, continue assim por favor!

Sessão Proibida

Eduarda Rozemberg disse...

Como posso descrever o quanto gostei desse texto? Gente! Super divertido, com uma mistureba enorme que me fez rir bastante. Outra coisa que gostei bastante foi incluir bastante coisa de harry potter, que é a minha saga favorita. Poste mais textos desse, por favor!
Um abraço!

http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

Márcia Saltão disse...

Olá!
Parabéns pela criatividade, ficou show! Muito divertido, adorei! Textos assim, são um colírio para os olhos. Queremos mais! Obrigada! Beijos.

Stephany Santim disse...

Olá, tudo bem?
Parabéns pela criatividade! Ri demais!
Já quero outro texto assim para ontem!
Um beijo!

Fernanda Mendonça disse...

Oi!! Esse eu achei bem divertido ahahahahahahah Parabens!!! Nunca ia pensar em escrever algo do genero, achei sensacional hahahaha

Ana I. J. Mercury disse...

Mari, Alê, eu sempre amei essa coluna, mas essa foi de arrebentar! Demais! Arrasou!
Ameeeei!
Que incrível e divertida!
Parabéns!!!! <333

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