quinta-feira, 19 de outubro de 2017

RESENHA: Eu sei onde você está

Eu sei onde você está / Claire Kendal / Thriller Psicológico
Gosto de livros que focam em como o personagem se sente diante de tal situação mais do que na situação em si. E thrillers psicológicos são um prato cheio para esse tipo de desenvolvimento. Foi isso que me atraiu em "Eu sei onde você está": a angústia de uma mulher que está sendo perseguida.

Desde a noite que passaram juntos, Clarissa não consegue se livrar de Rafe. Ele está em todos os lugares. Acompanhando todos os seus movimentos, mandando presentes nada bem vindos, vigiando sua casa. Não demora até que Clarissa passe a sacrificar sua rotina para poder escapar do olhar possessivo de Rafe. Para acumular provas suficientes contra seu perseguidor, ela deixa que a situação se desenrole para evitar correr o risco de ser menosprezada quando levar o caso à polícia. Mas Rafe fica cada vez mais perigoso e Clarissa entende que há motivos para ela mal lembrar da tal noite que deu início a tudo e da qual ela acordou com hematomas pelo corpo. Enquanto o pesadelo se desenrola, ela serve de jurada em um caso de uma mulher que também foi vítima de abuso sexual.

A história se desenvolve em duas narrativas, ambas no presente: de um lado, um narrador em terceira pessoa nos conta a história de Clarissa. Do outro, a própria Clarissa faz anotações detalhadas em um diário a respeito de tudo o que Rafe faz e de como isso faz ela se sentir.

Rafe é um personagem perturbador. Não o conhecemos fora do contexto perseguidor, mas nesta situação o conhecemos a fundo. Ele não é apenas obsessivo e desequilibrado. Ele é realmente violento e sua mania de encerrar cada frase com "Clarissa" é de dar arrepios. Um pequeno detalhe que funciona bem.

Quanto a Clarissa, é sua paranoia que dá forma a trama. A história não é sobre o que Rafe faz com ela e sim sobre o medo que ela sente do que ele pode vir a fazer. De onde ele possa estar. De onde mais possa se infiltrar. Das pessoas, próximas a ela, que ele possa alcançar. O medo de Clarissa é tão verdadeiro que, mesmo que as ações de Rafe não escalassem, ainda assim o livro se tornaria mais tenso a cada página porque é assim que a protagonista se sente, porque quando você está por um fio, até a brisa do vento se torna assustadora e é a esse ponto que Rafe reduz Clarissa.

"Devo parecer uma louca, como se eu tivesse algum tique nervoso. E fico me perguntando onde você está. Isso me apavora ainda mais, me faz ver que há o perigo de eu passar a ter uma fixação tão grande por você quanto você tem por mim. Na verdade, é isso que você quer, na sua missão interminável de conquistar minha atenção." (KENDAL, 2017, p. 130)

Em paralelo a isso, acompanhamos o caso do tribunal no qual uma prostituta viciada em drogas luta contra uma agressão sexual. O caso coloca uma carga extra sobre Clarissa que percebe o quão humilhante é estar na posição de vítima, uma abordagem da qual eu gostei. Em primeiro lugar, o caso não está ali apenas para preencher os dias da personagem e sim para entrar na mente dela. Não bastasse ela estar amedrontada pelo seu perseguidor, ela também tem medo do que deveria lhe ajudar a fazer com que a perseguição parasse. Nesse dilema, Clarissa se mostra uma personagem bastante racional diante de uma situação totalmente emocional, algo que também me agradou.

Em segundo lugar, fica claro que a autora quer mostrar o descaso das autoridades ao lidar com certos crimes. Porque a pessoa não está sob a mira de uma arma isso significa que ela está correndo menos risco ou que sua vida não está em perigo? Porque a mulher não consegue provar que foi estuprada, isso quer dizer que ela não foi? Porque a violência que o perseguidor comete deixa apenas marcas psicológicas isso significa que ela é menos traumática ou é menos digna de resgate do que a violência física? Até que ponto a vítima precisa sustentar uma situação insustentável apenas para acumular provas de que o que está acontecendo com ela é caso de polícia? Essas são algumas das questões que Kendal consegue abordar dentro da trama. 

É no julgamento também que a protagonista conhece um homem por quem desenvolve um interesse romântico. Aliás, Robert também é um personagem interessante já que Clarissa vê nele a antítese de Rafe, mas o leitor percebe que algo pode estar errado com ele. 

Mesclando a sequência de acontecimentos com Clarissa, os diários e ainda a história da vítima do caso do tribunal, "Eu sei onde você está" é um livro que mantém o interesse e o envolvimento, embora a tensão da história não chegue a contaminar o leitor. A trama é bem amarrada e conta com um desfecho em parte clichê, em parte inesperado. Não apresenta nada de extraordinário, mas é sim uma boa leitura.  

Título: Eu sei onde você está
Autora: Claire Kendal
Nº de páginas: 304
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon - Submarino
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17 comentários:

Gabriela CZ disse...

Me surpreendi agora, Mari. Parece que o livro não só tem uma boa trama como nos faz pensar no que há de errado no sistema judiciário. Me lembrou aquele homem que abusou de 17 ou 18 mulheres (que se teve registro) nos ônibus de São Paulo e só foi devidamente preso depois de 17 liberações. Realmente algo precisa ser revisto. Ótima resenha.

Beijos!

Renata Leite e Isadora Klauck disse...

Olá!
Que capa :O eu gosto de livros desse gênero, mais do que deveria até hahahha. Não conhecia ainda esse, mas já adicionei na minha lista do skoob.

Beijos,
Meise.

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RUDYNALVA disse...

Mari!
Fiquei até arrepiada, sabia?
Parece um daqueles thrillers envolventes que até daria um bom filme, né?
Deve ser horrível ter um ‘stalker’ atrás de alguém o tempo todo e ainda não ser ouvida pelas autoridades. O psicopata fica solto e livre e a pessoa, totalmente refém das atitudes dele, absurdo.
“É melhor saber coisas inúteis do que não saber nada.” (Sêneca)
Cheirinhos
Rudy
TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

Alice Duarte disse...

Oiii Mari

Gosto muito de livros de mistério, thrillers, bons suspenses mas vou ser honesta, de uns tempos pra cá muitos livros com uma premissa genial vem se perdendo em finais clichês. Esse livro pareceu ser legal e tals mas ainda não tem aquela "coisa" que me deixa louca pra ler um livro sabe?

Beijokas

aliceandthebooks.blogspot.com

Jessica Andrade disse...

Oi Mari,

Fico feliz que no geral tenha sido um bom livro, não sou muito de ler Thrillers, mas esse é bem interessante.
Bjs e um bom fim de semana!
Diário dos Livros
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Denise Sena de Oliveira disse...

Oi Mari, tudo bem?
Não sou muito fã de ler thrillers, mas estou aos poucos começado a ler.
Ainda nem tinha ouvido falar desse livro, mas ele parece ser muito bom!
Adorei a resenha.

Bjs :*
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Sora Seishin disse...

Oi Mari!
Não conhecia o livro ainda! Pela sua resenha é do tipo que a gente rói as unhas até o final né? Gostei da dica!

Beijos,
Sora | Meu Jardim de Livros

Thamiris Nunes disse...

Olá! Tudo bem?
Acabei de aprender lendo seu blog que esse estilo de livro se chama thriller psicológico kk
Adorei a resenha, eu com certeza o leria.
Obrigada pelo comentário lá no blog.
Volte sempre!

Misto Quente ~

Carol Hermanas disse...

nossa, gostei muito da sua resenha (:
acho incrível histórias que tentam se passar por APENAS histórias, mas conseguimos decifrá-las como algo que realmente acontece na atualidade. distopias e esse tipo de gênero estão cada vez mais frequentas nas nossas realidades :)

ameeei!

beeijão
https://bookelandia.blogspot.com.br/

Karol Nascimento disse...

Oiiiii....
Apesar de vc falar que o final e clichê eu estou muito curiosa para ler esse livro....nunca li um livro sobre perseguição e estou ansiosa pra ler...e que capa é essa assustadora kkk...bom acho que o livro vai me prender e que eu vou ler rapidinho...adorei a resenha...
Bjs

P.S. Adoro sua sinceridade..

Karol Nascimento disse...

Oiiiii....
Apesar de vc falar que o final e clichê eu estou muito curiosa para ler esse livro....nunca li um livro sobre perseguição e estou ansiosa pra ler...e que capa é essa assustadora kkk...bom acho que o livro vai me prender e que eu vou ler rapidinho...adorei a resenha...
Bjs

P.S. Adoro sua sinceridade..

Lidiane Andrade disse...

Oii! Tudo bom?
Conheci seu blog agora e gostei muito.
O livro parece muito bom, apesar de você falar que não contagia muito o leitor. Espero ler esse mês ainda.

www.paginadaleitura.blogspot.com.br

Mariele Antonello disse...

Como você, também gosto de livros de thrillers psicológicos, pela sua resenha a história deste livro parece ser boa, que bom que a história mantém o leitor interessado, mas acho que não seria uma história que eu leria com muita expectativa, então quem sabe futuramente eu leia Eu sei onde você está, mas sem muitas expectativas sobre a história.

Nicole Longhi disse...

Sou apaixonada por livros deste gênero!
Não conhecia este ainda, mas fiquei suuuper curiosa para saber mais (apesar do final cliche haha)
Adoro quando podemos ver o lado da vítima, e suas emoções e medos.

beijos

Paula disse...

Oi Mari,
Descobri pelas suas resenhas que tenho gostado e me interessado bastante pelos thrillers psicológicos. Esse livro achei curioso, pois a personagem Clarissa se vê aprisionada por Rafe e por si mesma. Pena o final não ser surpreendente como gostaria. Mas acredito que valha a pena, quero ler. E já ansiosa pela sua próxima dica do gênero.
Um beijo
Paulinha S

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Gostei muito da resenha e da premissa da estória que parece ser muito interessante. Acho bem instigante esse livro de Thriller psicológico que fala um pouco sobre como perseguidor age com a Clarissa.
Bjoss

Ana I. J. Mercury disse...

Nossa, que livro!
Muito intenso e perturbador. Além de ter uma trama importantíssima.
Preciso mesmo ler mais sobre as condições das mulheres que passam por tantas perseguições e violências domésticas.
Quero muito ler!
bjss

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