quinta-feira, 30 de novembro de 2017

RESENHA: A Cidade Solitária

A cidade solitária / Olivia Laing Solidão não tem a ver com companhia. Tem a ver com estado de espírito. É possível se sentir solitário em qualquer lugar, a qualquer momento, com qualquer pessoa. E isso não necessariamente precisa ser algo ruim. Alguns artistas utilizaram a solidão que os consumia como alimento para suas obras e é sobre isso que Olivia Laing fala no seu “A Cidade Solitária”.

Eu já havia lido outro livro da autora (“Viagem ao redor da garrafa”) cujo tema era grandes escritores e suas relações com o alcoolismo. Por isso, já sabia de antemão que a leitura não seria das mais ágeis, mas que compensaria com ótimas reflexões.

Mesclando experiências próprias de quando se mudou para Nova York, com a vida de artistas como Edward Hopper, Andy Warhol, David Wojnarowicz e Henry Darger e usando episódios destas vidas para compreender suas obras, Laing transforma “A Cidade Solitária” em um livro ímpar: misto de sua própria autobiografia, com a biografia dos artistas em questão, com livro de arte, com pinceladas de psicologia e críticas à sociedade.

A atração pelo tema veio da experiência da própria autora ao deixar sua vida na Inglaterra, se mudar para Nova York, e ainda precisar encarar o final repentino de um relacionamento. Resultado: se isolou em si mesma.

A Cidade Solitária” não é um livro bonito. É um livro que mergulha em escuridões profundas, das quais a solidão não é a causa de nada e sim a consequência. Drogas, maus tratos infantis, obsessão e até tentativa de homicídio são alguns dos temas que ganham espaço.

"É sobre querer e não querer: sobre precisar que pessoas se derramem sobre você e depois precisar que elas parem com isso, para você restaurar os limites de si mesmo, manter a separação e o controle. É sobre ter uma personalidade que tanto sente falta de outro ego quando teme ser subsumido nele; ser encharcado ou inundado, ingerir ou ser infectado pela confusão e o drama de outra pessoa, como se as palavras dela fossem literalmente agentes transmissores.” (LAING, 2017, p. 68)

Eu confesso que era pouco familiarizada com alguns dos artistas mencionados e que, apesar da popularidade de Warhol, foi Hopper que me atraiu. Há alguns anos, durante um curso de escrita criativa, um dos exercícios propostos pelo meu professor baseava-se em duas obras do pintor (“Morning Sun” e “New York Movie”) e, desde então, me encanta ver como as telas de Hopper contam histórias, como seus personagens têm vidas, históricos, e como sempre transmitem essa sensação melancólica e solitária de quem está tentando pertencer a algo. Tanto que neste ano, o autor de livros policiais Lawrence Block organizou uma antologia de 17 contos intitulada “Na luz e na sombra, histórias inspiradas nas pinturas de Edward Hopper”, da qual participam autores como Stephen King, Joyce Carol Oates e Lee Child. Ainda sobre Hopper, foi uma de sua obras que me chamou a atenção para um dos meus livros favoritos da vida: “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”. Apesar da minha identificação com o trabalho do pintor, talvez a história de Hopper seja uma das menos intensas do livro.

Por sua vez, Andy Warhol, famoso por suas Marilyns, seus Elvis, suas latas Campbell e também por sua excentricidade, surpreende ao se revelar uma pessoa que, apesar da fama e das festas, era essencialmente solitária.

Henry Darger, que trabalhou como zelador e teve sua obra descoberta após a sua morte, surge como o autor de uma série de pinturas incômodas, protagonizadas por crianças, em cenários que podem ser tanto encantadores, remetendo a contos de fadas, como de tortura e massacre.

Temos também a história de David Wojnarowicz, pintor e fotógrafo cuja bagagem familiar o levou à prostituição ainda na adolescência.

Outra coisa: se prepare para ler com um olho nas páginas e outro no Google, pois a vontade de analisar cada detalhe das obras mencionadas surge a cada instante.

A Cidade Solitária” usa algumas histórias específicas para falar sobre um tema mundial com o qual todos podem se identificar em algum nível. Solidão tem a ver com conexão, com intimidade. É possível estar sozinho e não estar solitário e é possível estar solitário em meio a dezenas de pessoas. A solidão é sua. Totalmente sua. Esse é um livro sobre pessoas que a deixaram transbordar e virar arte.

Título: A Cidade Solitária
Autora: Olivia Laing
N° de páginas: 304
Editora: Rocco
Exemplar cedido pela editora. 

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8 comentários:

Mrs. Margot disse...

Não conhecia o livro, mas conheço bem essa necessidade de ler e ao mesmo tempo ter o google aberto, apesar de serem leituras mais demoradas, são muito ricas de conhecimento.

MRS. MARGOT

Naiara Fidelis Da Silva disse...

Eu não conhecia este livro e nem a autora. Mas, apesar de parecer uma leitura bem densa, parece ser aquele tipo de livro que será bom para todos, pois cada um poderá tirar um bom proveito da obra e boas reflexões.

Carolina Santos disse...

Nunca ouvi falar nem um livro nem na altura mas achei que o livro tem uma pegada meio ponto biográfica realmente não faz muito meu tipo sempre fugi de livros assim porque nunca conseguem me conquistar

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari, adorei a definição de solidão, acho que é isso mesmo, um estado de espírito. Mão conhecia a obra, mas parece uma boa leitura.

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Ana I. J. Mercury disse...

Adorei sua resenha, Mari,
mas estou na dúvida se lerei a obra ou não.
Pelo visto é bem triste, embora realista, e isso me deixa triste só de pensar, rs.
beijinhos

RUDYNALVA disse...

Mari!
O tema um tanto filosófico: "É possível estar sozinho e não estar solitário e é possível estar solitário em meio a dezenas de pessoas. A solidão é sua. Totalmente sua. Esse é um livro sobre pessoas que a deixaram transbordar e virar arte."
O que achei mais interessante é ver através do livro, pessoas que a priori não deveria se sentir solitárias, afinal trabalham com arte de algum tipo e deveriam se sentir mais próximas das pesoas que gostavam de sua arte...
Temazinho complicado, né?
“A poesia contém quase tudo que você precisa saber da vida.” (Josephine Hart)
cheirinhos
Rudy

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
O livro parece se bem interessante, não conhecia a autora dessa estória. Mas acho que daria uma chance para fazer essa leitura.
Bjoss

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Esse livro tem cara de ser daqueles que mexem com a gente. Achei interessante o título e a capa. Anotei a dica.
Beijos
Balaio de Babados
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