sexta-feira, 16 de março de 2018

A influência da expectativa na leitura

Dificilmente lemos um livro às cegas. Se embarcamos em uma história é porque algo em sua premissa nos cativou ou porque já tivemos experiências anteriores com seu autor e confiamos que ele nos entregará outra boa história ou ainda porque alguém nos recomendou a leitura. Qualquer uma dessas coisas gera expectativas e é óbvio que ninguém dedicará tempo a uma leitura que não acredita que será boa. Mas até que ponto é bom iniciar uma leitura esperando tanto?

Eu já havia percebido que, muitas vezes, a minha expectativa em relação a um livro havia ofuscado a própria história. “Novembro de 63”, por exemplo, considerado um dos melhores livros escritos recentemente por Stephen King (inclusive na opinião do próprio autor) foi morno para mim. Tudo porque eu havia entendido que a história era sobre as consequências de o protagonista tentar impedir o assassinato do presidente John Kennedy, quando na verdade a história era sobre os anos que antecederam o atentado, ou seja, a preparativa do protagonista para esse grande momento. Resultado: por centenas de páginas me senti enrolada porque o autor não chegava ao que importava e a história não começava nunca. Só que o problema não estava na história e sim na minha expectativa, já que a história que King tinha para contar era outra e estava, sim, sendo muito bem desenvolvida. Depois de perceber isso, continuei a leitura com outros olhos, mas parte da empolgação já havia se dissipado. Um ótimo livro pouco aproveitado devido a minha expectativa.

Outra prova de que expectativas nas alturas não fazem bem à leitura nenhuma foi o que constatei ao final de 2017 ao fazer a minha lista de melhores do ano. Pela primeira vez em seis anos de blog, o livro que eu elegi como a minha maior expectativa realmente ficou no posto de melhor leitura. Os outros, raramente entraram no pódio no ano seguinte, embora sejam (em sua maioria) ótimas leituras.  

Quando você espera demais, por mais que o livro entregue, não será suficiente. Se você já pensa de antemão que será arrebatado, o quanto ele não terá que fazer para realmente conseguir arrebatar você? Se você já espera se emocionar, o quanto ele não deverá investir nisso para realmente conseguir esse efeito? Foi assim que eu desvendei aquele que é considerado um dos livros mais surpreendentes de Agatha Christie: “O Assassinato de Roger Ackroyd”. A trama é tão bem construída como qualquer outra da Dama do Crime e conta com aqueles truques só ela era capaz de fazer para enganar seu leitor. Eu, que sabia da reputação do livro, li toda história pensando: “Mas o que seria tão surpreendente? Qual seria a coisa mais inesperada? Só se o assassino for....”. Pronto! Charada matada graças à minha expectativa (e ainda assim dei um pulo da cama quando a autora revelou que as minhas suspeitas estavam certas).

Quando li “Morte Súbita”, um dos livros mais controversos que já vi pela blogosfera, tive a sorte de ter sido alertada por uma resenha: “o livro não é sobre a morte e sim sobre a vida de cada um desses muitos personagens”. Resultado: li apreciando a complexidade de cada um e não frustrada pela lentidão com que a história avançava, afinal a intenção nem era que se desenvolvesse rapidamente, já que não se tratava de uma investigação de assassinato e sim do cotidiano de uma cidadezinha. Leitura salva por expectativas ajustadas.

Alguns livros são bons. Alguns livros são ótimos. Às vezes, o que coloca um em uma categoria ou em outra é o que você espera dele. Um ótimo livro pode ser uma decepção se você estiver esperando um livro genial. Um livro bom pode ser um excelente entretenimento se você não esperar muito dele e se deixar levar. É por isso que leio sinopses e trato de esquecê-las o mais rápido possível e, em alguns casos, nem leio, apenas me jogo no livro porque sei que gosto do seu autor. Porque é aquela velha história: nada como avaliar o livro pelo livro, e apenas pelo livro, em si.


15 comentários:

Daiane Araújo disse...

Oi, Mari.

Você falou tudo e mais um pouco!

Quando vamos com muita sede ao pote, acabamos, de uma certa forma, nos decepcionando com algo. Nos livros principalmente. O ideal é não criar expectativa, simplesmente ler.

Porém, por outro lado, há influências de terceiros... De tanto as pessoas falarem bem sobre um determinado livro, as expectativas ficam lá em cima, e no final, o livro acaba se tornando só mais uma leitura nem tão fantástica.

Maurilei Teodoro disse...

Eu não esperava muito de Novembro de 63, e o resultado foi meu livro preferido dentre centenas. Quando li O assassinato de Roger Ackroyd eu já sabia quem era o assassino, e por isso perdeu a graça.

Sil disse...

Olá, Mari.
As expectativas que criamos quase sempre são as responsáveis por nos fazer desagradar da leitura. Já aconteceu várias vezes comigo. Seja por ser de um autor que amo como por ser de algum livro que todos estão elogiando. Um dos casos que considero mais grave aconteceu com ACEDE. Li tantas resenhas positivas, tantas pessoas falando que ia me acabar em lágrimas e achei o livro bem do mais ou menos. Mas acredito que é muito dificil não criá-las. O que costumo fazer é esperar para ler quando vejo um livro que quero ler e está sendo muito elogiado.

Prefácio

Thalita Branco disse...

Olá Mari!
Excelente reflexão. Vezes sem conta adorei livros que comecei com zero expectativa e quebrei a cara com aqueles que esperava muito. Mas ultimamente venho sofrendo mais com filmes. As vezes os trailers prometem tanto, mas tanto, que vou ao cinema com uma ideia pré concebida e o filme se mostra outra coisa. Tanto que ando evitando ver trailers ou ler criticas antes de ver o filme.
Bjs

EntreLinhas Fantásticas

Gabriela CZ disse...

Mais uma vez preciso concordar contigo, Mari. Expectativas são facas de dois gumes, pois podem nos fazer apreciar o livro pelo que é ou nos decepcionar por esperar algo errado. Então, assim como você, leio a sinopse e só leio o livro depois de esquecê-la. Ótimo post.

Beijos!

RUDYNALVA disse...

Mari!
Como leio muitas resenhas em diversos blogs, tem alguns livros que geram mesmo uma grande expectativa devido as análises, mas nunca entro em um livro com as expectativas altas, porque das vezes que o fiz, quebrei a cara, como falou... Agora quando termino um livro e vou entrar em outro, entro sem esperar nada de tão surpreendente, para poder me surpreender diante da leitura.
Bom domingo!
“Quando choramos abraçados e caminhamos lado a lado. Por favor amor me acredite, não há palavras para explicar o que eu sinto...” (Renato Russo)
cheirinhos
Rudy
TOP COMENTARISTA MARÇO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

Ludyanne Carvalho disse...

Está certíssima!
A expectativa acaba tirando a magia da história, já estamos ali desejando que seja bom e acabamos ficando cegos com isso.
E às vezes até pode ser uma boa leitura, mas por esperar tanto acaba decepcionando. Estou tentando não criar expectativas mais.

Beijos

Sora Seishin disse...

Oi Mari!
Adorei o seu texto!
Eu tento não ir com expectativas, por isso nem gosto de ler livros quando eles estão na moda e são toda hora divulgados pelas editoras. Eu dou uns meses para comprar e ler quando a poeira já abaixou.

Beijos,
Sora | Meu Jardim de Livros

Adriana Holanda Tavares disse...

ahahahahah, super concordo, mas fiquei pensando e como fazer para não criarmos essa tal expectativa? Como fazer para passar imune a essa sensação que nos invade cada vez que vemos uma nova leitura? Eu mesma já sofro por parte de capas, se uma capa é bonita acrdedito sei lá porque que eu vou amar a leitura e nem sempre é assim!

Caroline Waschburger disse...

Oi Mari! É sempre assim quando se trata de expectativas, né? Acho que pra qualquer coisa. Até na vida a gente se decepciona quando cria expectativas demais, haha! Já aconteceu comigo no quesito leitura também.

Beijo!
www.controversos.com

Helaina Carvalho disse...

Oi Mari!
Realmente criar muita expectativa atrapalha a leitura já que algumas vezes esperamos que aconteçam coisas que nem o autor/a pensou em colocar no livro. Mas confesso que às vezes é difícil não fazer isso!!

Beijusss;
https://hipercriativa.blogspot.com/

Catarina Pinheiro disse...

Oi Mari!
Adorei o post e concordo totalmente! As expectativas sobre o livro nos leva a amarmos alguns e odiarmos outros.
Não acredito que você descobriu o culpado de “O Assassinato de Roger Ackroyd”!
Por isso que eu sempre procuro ler um pouco sobre esses livros policiais mas não me prender muito se a história vai ser surpreendente ou não. Eu sempre deixo a vida me levar e no final me assusto com o final ahuahauha
No meu caso de "Morte Súbita" foi o contrário, criei altas expectativas e no final me decepcionei bastante com o livro.
Realmente devemos tentar manter expectativas medianas e aproveitar o que o livro tem de melhor.
Bjs

suzana cariri disse...

Oi!
Esse é um ponto que já tinha parado outras vezes para pensar e cheguei a conclusão de que quando se espera muito de um livro raramente ele é tudo aquilo que imaginamos, já vi comigo e vários comentários, de pessoas que falaram que estavam na expectativa para aquele livro e que se decepcionou e outras que estavam sem expectativa nenhuma e se surpreenderam, por isso tendo ir sem muitas expectativas para minhas leitura, mas as vezes não tem como, seja pelo nome que a autora criou no mercado, ou por comentários, sempre esperamos mais. Outra coisa que vejo muito é editoras fazendo muito propaganda, vendo uma historia e quando lemos e algo completamente diferente !!

Ana I. J. Mercury disse...

Concordo com você, Mari!
É bem assim mesmo.
Eu gosto de ler sem expectativas, calma, coração aberto kkk mas, confesso, que quanto mais leio e gosto de um autor, mais expectativas fico com os próximos lançamentos deles, e com isso, pode acontecer de não gostar tanto assim de um ou outro.
Livros que têm uma boa hype também acontece de eu não gostar, mas acho que é normal. Não é porque a maioria gosta que eu vou gostar também né.
bjs

Carolina Santos disse...

As vezes criamos tantas expectativas a respeito de uma obra que mesmo ela sendo incrivel ainda fica aquela sensação de vazio dentro de você como se o livro ainda não tivesse chego ao fim

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