terça-feira, 8 de maio de 2018

RESENHA: O Clube dos Oito

O Clube dos Oito / Daniel Handler
Uma história que não conseguimos definir se é sobre um crime chocante e terrível ou se é sobre a vida adolescente em um colégio onde nada deve ser levado tão a sério. Bem vindo a “O Clube dos Oito”.

Flannery Culp quer contar a sua história. Sim, ela está presa por ter assassinado um dos seus colegas de escola (o rapaz para quem ela passou o verão todo escrevendo cartas e declarações de amor), mas isso não quer dizer que sua versão não mereça ser ouvida, ainda mais que alguns ditos “especialistas” estão o tempo todo na TV dissecando o comportamento dela e, no geral, falando apenas besteiras sobre ela e seus amigos.

Nas primeiras páginas de “O Clube dos Oito” Flannery já confessa que está reescrevendo o diário que manteve nos meses que antecederam o assassinato e também que se considera uma escritora. Assim, já sabemos que ela não é confiável por estar contando sua própria versão dos fatos e também por estar lapidando as anotações que fez na época, em vista da sua atual situação, e ainda pela dose de liberdade criativa que pode haver em sua narrativa. E nada como uma narradora não-confiável para deixar um leitor com a pulga atrás da orelha.

Outra coisa da qual já temos conhecimento desde o início é do crime em questão. Sabemos quem será assassinado, sabemos quem é o assassino e também sabemos que Flannery está presa no momento em que conta a história, então não há mistério envolvido e também não adianta torcer por ela ou imaginar se escapará impune. Dessa forma, “O Clube dos Oito” se torna um daqueles livros em que o importante não é encontrar respostas e sim ver as coisas se desenrolarem para entender o contexto no qual o crime se deu.

“No canto dos olhos e no alto da minha cabeça, eu sentia o peso de todos os meus amigos, enraivecidos e esgotados por algo que eu tinha feito e que não fazia nem ideia do que poderia ser.” (HANDLER, 2018, 357)

Em um livro em que as respostas parecem estar evidentes desde o início, Handler guarda uma revelação para o final. Essa, evidentemente, tem a intenção de surpreender, de revirar a mente do leitor, mas para mim não teve esse efeito, mesmo que eu não tivesse desconfiado daquilo. O problema é que Handler usa um recurso já utilizado em outras tramas e que teria tudo para funcionar, mas soa totalmente gratuito e pouco importante para a maneira como a história se desenrola. Deveria mudar a maneira como lemos tudo até ali, mas o que me provocou foi um “Sério? Ok, então.”

Vejo “O Clube dos Oito” mais como uma história sobre corredores de colégio do que uma sobre crime. O problema é que ao tentar ser as duas coisas, o livro não conseguiu ser nenhuma das duas satisfatoriamente. A narrativa é fluida e até irônica em alguns momentos, há intrigas e personagens dúbios para todos os lados, mas tudo está ali apenas como uma paisagem da qual não participamos. Não sentimos o cheiro, nem a brisa, apenas vemos uma imagem. Em resumo, o livro não cativa.

A protagonista cometeu um assassinato – algo extremamente intenso – e ainda assim eu não consegui ter sentimento nenhum por ela – nem de empatia nem de antipatia -, não consegui torcer contra nem a favor. Além disso, há algumas situações (como a do professor de biologia) que parecem inseridas na história para cumprir uma função que simplesmente não cumprem (e não fica claro qual função seria essa). Além de tudo, o contexto em que o crime se dá é ridiculamente banal. A prova de que achei a história falha em desenvolvimento é que, faltando umas 40 páginas para o desfecho, me ocorreu que talvez se tratasse do primeiro livro de uma série.

É uma pena porque Flannery tinha tudo para ser uma boa personagem (perturbadora até) e seus amigos deveriam ser interessantes (se não pelo que são nos corredores do colégio, pelo que decidem fazer para ajudar a amiga), mas acabam se resumindo a um bando de adolescentes. Um mero “Clube dos Oito”.

Daniel Handler é também conhecido pelo pseudônimo Lemony Snicket, autor das séries “Só Perguntas Erradas” (com a qual eu já tive o prazer de me divertir) e “Desventuras em Série”, mas seu livro de estreia parece justamente isso: um livro de estreia, que me deixou com a terrível sensação de entender os acontecimentos da história, mas não entender qual era a história que o autor pretendia contar.

Título: O Clube dos Oito
Autor: Daniel Handler
N° de páginas: 399
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

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15 comentários:

Daiane Araújo disse...

Oi, Mari.

Mesmo o livro sendo muito óbvio, acho que no fundo, ele desperta nos leitores uma curiosidade em tentar entender e mergulhar na mente da Flannery através de suas lembranças, e em saber como tudo se iniciou e trucidou na morte do garoto.

Adriana Moreira disse...

Oi, Mar!
Apesar de sua resenha (que está ótima) falar que o "livro não cativa", fiquei super curiosa para me inteirar dessa história! Sei que aqui, tudo já está meio que desvendado, quem morreu, quem matou (que está presa) o ambiente do crime, mas saber a versão, mesmo que não seja confiável, porque o criminoso sempre vai tentar se justificar para amenizar as impressões negativas sobre ele(a). ainda assim eu quero ler. Quero saber, na versão da Flannery o que a levou a se tornar essa assassina!
Obrigada pela resenha muito bem destrinchada!
Grande abraço,
Drica.

Nessa disse...

Oi Mari
Eu não conhecia a premissa deste livro, fiquei curiosa e ao mesmo tempo em dúvida em ler depois de ver suas ressalvas. Ainda sim se tiver oportunidade lerei.

Beijinhos
https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Alice Duarte disse...

Oiii Mari

O livro prometia, mas caiu na mesmice e pelo que vejo terminou sendo totalmente sem sal, daquele que apenas entretém mas não conquista. Uma pena. Eu ja nem tinha ele na lista e de momento não me animaria em ler, a história em si não tem uma pegada que me deixe curiosa.

Beijos

www.derepentenoultimolivro.com

Gabriela CZ disse...

Estava super empolgada até chegar nos pontos negativos, Mari. Uma pena ter tantas falhas, mas até que fiquei interessada. Ótima resenha.

Beijos!

Cleber Eldridge disse...

Por um momento achei que tivesse algo relacionado com O Clube dos Cinco KKK pois não tem e parece ser bem bem interessante, vou anotar a dica.

clebereldridge.blogspot.com.br

Vitória Pantielly disse...

Oi Mari,
Entendi que a proposta do autor foi confundir o leitor por meio da protagonista, achei interessante ele já entregar tudo no começo do livro, e só depois nos explicar (de certa forma) o que aconteceu, mesmo com os pontos negativos que você citou, eu realmente me interessei.
Beijos

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Eu já tava com aquela impressão de conhecer esse autor de algum lugar, aí você me lembrou que ele que escreveu Desventuras em Série. Não conhecia esse livro dele, mas confesso que não me chamou muito a atenção. Peguei ranço dele depois de me irritar com Desventuras rs

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari, apesar de conhecer Desventuras em série eu nunca li nada do autor. E estou bem impressionada que a protagonista não tenha despertado nenhum interesse em você, nem mesmo raiva. Vou passar essa leitura!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

sophi clickn disse...

This book made a strong impression on me dear,thanks for sharing..

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Tamires Marins disse...

Oi, Mari

Não sabia que era o mesmo autor de Desventuras em Série. Que pena que o livro acabou não sendo nada na tentativa de ser várias coisas, aliás, gostei particularmente dessa frase na resenha. Hahahah
Honestamente achei o enredo BEM parecido com o de Um de Nós Está Mentindo... a atmosfera escolares, o crime, a TV sensacionalista... confesso que curti muito o livro da Galera, mas não sei se leria esse da Seguinte.

Beijos
- Tami
https://www.meuepilogo.com

RUDYNALVA disse...

Ai Mari!
Já estava aqui toda empolgada que seria um ótimo livro ao ler o início da sua resenha, daí você vem e dá uma rasteira, dizendo que é apenas um mero livro adolescente... magoei...kkkkk
Desejo um ótimo final de semana e um feliz dia da mães abençoado!
“Moral é o que te faz sentir bem depois de tê-lo feito, e imoral o que te faz sentir mal.” (Ernest Hemingway)
cheirinhos
Rudy
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Mari Zavisch disse...

Oi, Mari!
Eu não conhecia o livro, mas fiquei bem curiosa quando comecei a ler a sua resenha. Eu gosto desse tipo de trama e quando temos que duvidar de tudo o que o narrador diz. Mesmo com os seus pontos negativos, ainda acho que quero tentar a leitura. Acho que vou gostar!
Beijinhos,

Galáxia dos Desejos

Helena Carvalho disse...

Oi Mari!
Nossa, que pena o livro ter tantos pontos negativos, tava super empolgada com a sinopse. Triste, porque pela premissa teria muito bem como dar certo, pena que é tão óbvio no final das contas.

Marlene Conceição disse...

Oi Mari.
Uma pena que essa tenha sido uma leitura decepcionante para você, eu particularmente gosto bastante quando nas histórias temos um narrador não-confiável, que instiga o leitor a pensar no que é ou não verdade, mas pelo visto, isso não foi lago que caiu positivamente para você, no contexto geral, eu ainda pretendo ler o livro, só tentarei não ir com muitas expectativas, para não me decepcionar durante a leitura.
Bjs.

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