quinta-feira, 17 de agosto de 2017

RESENHA: Um tom mais escuro de magia

“Kell sempre se pegava falando com a magia. Não comandando, mas simplesmente conversando. A magia era algo vivo, isso todos sabiam. Mas ele sentia algo mais, como se ela fosse uma amiga, alguém da família. Afinal, era parte dele (muito mais do que da maioria das pessoas), e Kell não conseguia evitar a sensação de que a magia sabia o que ele estava dizendo, o que estava sentindo. E não apenas quando a invocava, mas o tempo inteiro, em todas as batidas de seu coração e a cada respiração.” (SCHWAB, 2016, p.34)

Desde o surto ocorrido na Londres Preta, e que levou ao isolamento desta, Kell é um dos últimos Antari, magos com a capacidade de viajar entre as Londres fazendo a troca de correspondências entre as realezas de cada uma. A sua é a Londres Vermelha, onde a magia corre pelas ruas, mas há também a Londres Cinza, sem magia, e a Londres Branca, governada por dois irmãos ambiciosos onde nem sempre a magia é usada para o bem. Nas horas vagas, Kell também é um contrabandista que consegue mercadorias para colecionadores e entusiastas de mundos mágicos que eles nunca poderão conhecer. Em uma dessas transações, um artefato perigoso vem parar nas mãos de Kell: uma pedra que carrega o tipo de poder típico da Londres Preta. Um tipo de magia que se fez de tudo para que fosse destruída. Para evitar que a pedra faça mal a alguém ou caia em mãos erradas, Kell decide que o melhor a fazer é levar o artefato de volta ao seu lugar de origem, mesmo que isso seja uma missão praticamente impossível. No caminho, ele encontrará Lila, uma ladra da Londres Cinza que fará de tudo para viver uma grande aventura.

A magia presente no mundo de “Um tom mais escuro de magia” se aplica também as suas páginas. De que outra forma é possível explicar que o livro cative imediatamente nas primeiras linhas antes mesmo de a história começar? São os seus personagens que ainda nem conhecemos? São os seus quatro mundos paralelos que ainda nem entendemos? É a narrativa fluida que ainda mal tivemos oportunidade de experimentar? Se a resposta não for magia, então é a deliciosa combinação de todos esses elementos.

É verdade que a história em si demora um pouco a começar (eu diria que isso acontece mesmo por volta da página 300), mas é perfeitamente compreensível visto que a autora precisa de tempo para apresentar a mitologia deste mundo. É preciso tempo para entendermos as peculiaridades de cada Londres, entendermos a relação que cada uma delas tem com a magia (na Londres Preta, a magia se tornou mais forte que as pessoas; na Branca, magia é sinônimo de poder e domínio; na Vermelha, a magia é uma coisa maravilhosa; e na Cinza a magia é um sonho, algo que se imagina como é, mas não se tem como saber ao certo).

Também é preciso tempo para que sejamos apresentados aos nossos protagonistas e como é bom conhecer personagens promissores como Kell e Lila. Kell tem sua lealdade definida, mas ao mesmo tempo é um solitário. Ele é um dos únicos que pode estar em todos os lugares, mas sente que não pertence a lugar nenhum. A sua é a Londres Vermelha, onde ele é respeitado e reverenciado, mas mesmo lá ele se sente um forasteiro já que, quando criança (quando foi descoberto que era um Antari), ele foi levado a viver com a família real que o criou como a um filho, mas ele nunca se sentiu de fato parte da família, apesar de todos fazerem o possível para isso. Neste núcleo surge também outro personagem carismático: Rhy, o príncipe que tem Kell como um irmão, que é amado pela população e que dedica boa parte do seu tempo a curtir a vida e encontrar novas (e novos) envolvimentos amorosos.

Lila é ainda mais promissora. Pouco sabemos sobre o seu passado e, neste primeiro livro, fica no ar a sensação de que há muito mais para se descobrir do que a própria personagem sabe sobre si mesma. Além disso, Lila é aquele tipo de personagem cheia de vida. Audaciosa, corajosa, atrevida e irônica são alguns dos adjetivos que podem ser aplicados a ela.

Ainda sobre os personagens, outra coisa que me agradou foi a autora não forçar um romance entre os protagonistas, embora deixe no ar que isso possivelmente irá acontecer nos próximos livros. Aqui não temos paixões fulminantes que surgem do nada e roubam desmerecidamente o espaço que deveria ser dedicado à aventura e à fantasia. Aqui temos uma relação que está nascendo em meio a uma situação perigosa e que poderá, ou não, tomar rumos românticos, mas que se manterá em segundo plano diante  da missão que os dois personagens tomaram para si. Ao menos é o que parece e é o que eu espero. 

Mas talvez o aspecto mais interessante seja a maneira como a autora aborda o poder da magia. Não se trata apenas do poder para realizar feitiços e encantamentos, mas sim do poder que a própria magia tem. Nessas Londres, a magia tem vontade própria e se não for bem controlada pelos humanos poderá assumir o comando e controlá-los.

Na Bienal do Livro do Rio de Janeiro deste ano, a editora Record fará o lançamento do segundo livro da trilogia, contando com a participação da autora. Eu estou bastante curiosa para ver os rumos que a história irá tomar, já que vejo este livro (como quase todo o primeiro livro de uma trilogia) mais como uma introdução a este mundo e não exatamente como o desenvolvimento de uma trama. Também fico extremamente curiosa para finalmente sentir um gostinho da Londres Preta (confesso que esse isolamento me trouxe lembranças do Distrito 13 de “Jogos Vorazes”) e para ver quais serão os desafios dos protagonistas agora que três maravilhosos vilões foram postos fora da jogada (foram mesmo?). “Um tom mais escuro de magia” é, certamente, uma saga promissora.

Título: Um tom mais escuro de magia
Autora: V.E. Schwab
N° de páginas: 418
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 15 de agosto de 2017

PROMOÇÃO: As Garotas


Uma menina tentando descobrir quem é em meio a um perigoso culto em plena década de 60. Esse é "As Garotas", livro de estréia de Emma Cline que o Além da Contracapa sorteia em parceria com a Editora Intrínseca

Regulamento:

A promoção terá início no dia 15 de agosto e término no dia 08 de setembro

Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebook e ter um endereço de entrega no Brasil.

As demais entradas são opcionais

Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog e a editora no twitter. 

O resultado será divulgado no blog e nas redes sociais até três dias após o encerramento da promoção, sendo que o sorteado será contatado por e-mail, tendo o prazo de 48 horas para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. 

Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

O vencedor ganhará um exemplar do livro "As Garotas"

O livro será enviado pela Intrínseca. 

A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.

a Rafflecopter giveaway

domingo, 13 de agosto de 2017

RESENHA: O Apanhador no Campo de Centeio

“— Claro! Gosto que a pessoa seja objetiva e tudo, mas não gosto que seja objetiva demais. Não sei. Acho que não gosto quando a pessoa é objetiva o tempo todo.” (SALINGER, 2016, p. 218).

***

O Apanhador no Campo de Centeio é um dos maiores clássicos da literatura norte-americana, aclamado tanto pelo público, quanto pela crítica. Por isso, há anos tinha o desejo de conferir a obra prima de J.D. Salinger. 

Holden Caufield, um adolescente de dezesseis anos, foi expulso de sua escola e, descontente com a situação, resolve retornar para Nova York antes do início do recesso de fim de ano. Assim, acompanhamos suas aventuras na Big Apple às vésperas do Natal, seu descontentamento com a sociedade, seus desgostos, medos e planos para o futuro. 

O Apanhador no Campo de Centeio é narrado por Holden em primeira pessoa e Salinger utiliza da técnica do fluxo da consciência. Ou seja, o protagonista fala tudo sem filtro, conforme as ideias lhe surgem à mente, às vezes interrompendo a si mesmo e fazendo saltos temporais sem seguir uma linha lógica. 

O início do livro estava me agradando, pois estava bastante intrigado com Holden e sua personalidade. Porém, com o avançar da leitura, comecei a sentir o vazio da trama. A estória basicamente acompanha o protagonista indo do ponto A para o ponto B, de lá para o ponto C e assim sucessivamente. O problema é que nenhum destes eventos são relevantes ou significativos, mas isto não impedia Holden de descrevê-los em detalhes. 

Entretanto, é preciso dizer que Holden é um personagem interessante. Logo percebemos que sua constante insatisfação — com a sociedade, a família e a escola — e suas críticas exacerbadas, apontam para um adolescente que está completamente perdido em uma crise de identidade, que vai para um lado e para outro, sem saber o que quer da vida, por que, na verdade, não sabe quem é. 

Mas o problema é que Holden, em vez de olhar para sua vida como uma tela em branco — se me é permitido o clichê — e colocar energia na tarefa de descobrir o que quer ser, ele parece se limitar a ver o lado ruim. Dessa forma, o protagonista é a encarnação do típico adolescente rebelde sem causa, com um senso de superioridade intragável, que parece gostar de ser incompreendido e que prefere criticar a ter uma atitude positiva. 

Entretanto, ao mesmo tempo que o protagonista conta com essa bagagem dramática e promova certas reflexões, a estória em si se limita a uma sucessão das reclamações de um adolescente, possivelmente mimado, de dezesseis anos. Então, por mais interessante que seja o aspecto psicológico, este não consegue compensar a falta de carisma de Holden, muito menos preparar o leitor para mais de duzentas páginas de reclamações. 

A meu ver, um dos trechos mais interessantes do livro é quando Holden vai conversar com um ex-professor no meio da madrugada. Antolini é um dos poucos adultos a aparecer na estória e logo vemos que ele consegue enxergar Holden, muito melhor do que o próprio adolescente enxerga a si mesmo e se preocupa por ver a jornada sem destino do ex-aluno. É justamente do diálogo entre os dois que retirei o quote que abre esta resenha, pois é uma descrição perfeita da forma como Holden conta sua estória (e talvez até mesmo da forma como vê o mundo): sem objetividade, sem foco e com inúmeras divagações.   

Talvez uma das maravilhas do livro seja sua ambiguidade. Emergimos na cabeça de Holden, mas a verdade é que como nem ele mesmo sabe quem é, nós como leitores também temos a sensação de não conhecê-lo direito. Ele pode ser um adolescente problemático, talvez com problemas mentais. Ou ele pode ser um adolescente são que crítica os valores de uma sociedade problemática, na qual não consegue se encaixar. Caberá ao leitor interpretar e as possibilidades são inúmeras. 

De qualquer forma, preciso admitir que O Apanhador no Campo de Centeio foi uma leitura bastante decepcionante e o que me incomodou foi justamente a falta de estória. A meu ver não se poderia dizer nem mesmo que a jornada de Holden é o cerne da estória, pois ele não parece passar por grandes evoluções. Um livro interessante, mas certamente superestimado. 

Título: O Apanhador no Campo de Centeio. 
Autor: J. D. Salinger
N.º de páginas: 250
Editora: Editora do Autor

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

RESENHA: Me diga quem eu sou

“Os enfermeiros te imobilizam, a injeção te dopa, as amarras te prendem e só resta aguardar em silêncio pela generosidade de alguma mão que talvez te liberte da paralisia.” (GAYER, 2017, p. 44)

Helena Gayer foi diagnosticada com transtorno bipolar aos 21 anos. Esse é o relato da sua trajetória, suas idas e vindas de instituições psiquiátricas, seus surtos, suas humilhações, os perigos em que se colocou, as pessoas que encontrou pelo caminho e sua luta constante contra uma condição que, de tempos em tempos, varre a realidade da sua mente.

Com uma narrativa fluida e sincera, Helena relata de maneira franca um verdadeiro pesadelo que pode começar a se desencadear em qualquer lugar e atingir os mais diferentes níveis de perigo e humilhação.

Embora não se esquive de contar as piores coisas que viveu, Helena não se estende nem se atém a tantos detalhes, falando rapidamente sobre as coisas que lhe aconteceram e, em especial, os episódios de surto e os milhares de recomeços que precisou enfrentar. Nesses relatos, ela mostra o quanto ela mesma não era capaz de entender as coisas que fazia, apenas se deixava guiar pelo impulso de fazê-las. Mostra também o quanto a realidade mais simples (como andar de ônibus ou ir a um restaurante) é apreciada de maneira diferente por quem nem sempre pode usufruir dela.

Fica claro o quão pouco as pessoas entendem sobre os altos e baixos da doença (eu mesma sabia pouca coisa), sobre como estão pouco preparadas para lidar com um pessoa que pode atingir picos de euforia e depressão sem maiores explicações. Mas pior do que isso, fica claro o quão baixo o ser humano pode chegar diante da fragilidade de uma pessoa que não está em posse de suas faculdades mentais (não são apenas um ou dois casos de abuso que Helena compartilha com os leitores).

Formada em jornalismo, Helena Gayer faz um relato íntimo e, ao mesmo tempo, cru sobre a sua condição em um livro que, claramente, tem a intenção de abrir os olhos das pessoas e ajudar aqueles que sofrem da mesma condição que ela.

Título: Me diga quem eu sou
Autora: Helena Gayer
N° de páginas: 113
Editora: Objetiva
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

RESENHA: Pollyanna

“— Mas tia Polly... tia Polly, não me deixou nenhum tempo para... para viver. 
— Para viver, criança? O que quer dizer com isso? Como se não vivesse o tempo todo...
— Claro, vou estar respirando o tempo todo que estiver fazendo essas coisas, tia Polly. Respiramos o tempo todo enquanto dormimos, mas não estamos vivendo. Quero dizer... vivendo... fazendo as coisas que a gente quer fazer: brincar lá fora, ler (para mim mesma, é claro), escalar colinas, conversar com Mr. Tom no jardim e com Nancy, e descobrir tudo sobre as casas e as pessoas, sobre essas ruas adoráveis por onde passei ontem. Isso é o que chamo de viver, tia Polly. Só respirar não é viver.” (PORTER, 2017, p. 45)

***

Pollyanna é uma criança de onze que é acolhida por sua tia quando se torna órfã. Para manter acesa a memória de seu pai, Pollyanna constantemente joga o “jogo do contente”, uma brincadeira que a estimula a olhar para o lado positivo de todas as circunstâncias. Porém, a convivência com tia Polly, uma senhora rígida e severa, será um desafio para ambas. 

Creio que seja seguro dizer que Pollyanna é a personificação do otimismo e da alegria, pois ela sempre consegue encontrar algum motivo para contentar-se. Estes atributos brilham ainda mais por contrastarem tanto com a personalidade de sua tia, uma mulher amargurada e que, acima de tudo, é “conhecedora de seus deveres”. 

Preciso confessar que, em um primeiro momento, essa felicidade excessiva de Pollyanna me pareceu irritante e até mesmo um pouco inverossímil, afinal, ninguém é feliz o tempo inteiro. Porém, aos poucos comecei a perceber que este desconforto dizia mais sobre mim do que sobre Pollyanna. A verdade é que todos nós, com o passar dos anos, perdemos essa alegria genuína de viver tão típica da infância. E está é a grande lição da obra de Elanor H. Porter: nos fazer enxergar o que deixamos para trás. 

Curiosamente, diversos personagens apresentaram exatamente a mesma reação que a minha quando foram apresentados à protagonista. Em um primeiro momento os vemos sentir um estranhamento por tamanha alegria e positividade, que julgam parecer falsa ou forçada. Mas aos poucos todos os personagens são conquistados pela inocência de Pollyanna e sua alegria de viver. 

Um dos aspectos mais interessantes é, justamente, o efeito que a criança causa em Polly e como ela paulatinamente deixa de se preocupar com seus deveres, dando espaço a um amor verdadeiro pela sobrinha. Pollyanna acaba se tornando, mesmo sem saber, um poderoso remédio para a tia, que redescobre suas prioridades e se reconcilia com o passado. 

Eleanor H. Porter fala sobre uma verdade universal — e que nos dias de hoje até pode soar como um clichê —, mas que muitas vezes optamos por ignorar. Podemos ver o copo meio cheio, ou meio vazio. Podemos escolher olhar para o lado positivo ou nos limitarmos a ver o lado ruim.

Um livro simples, mas extremamente profundo em sua simplicidade e que nos faz refletir sobre diversos aspectos de nossas vidas. No fim das contas, Pollyanna nos mostra que a vida pode ser alegre e mais leve se nos desapegarmos daquilo que nos faz mal. 

Título: Pollyanna
Autora: Eleanor H. Porter
Nº de páginas: 201
Editora: Martin Claret
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 6 de agosto de 2017

RESENHA: Até que a culpa nos separe

“Todo mundo tem outro estilo de vida escondido na manga com o qual poderia ser feliz. Sim, Sam poderia ter sido um encanador casado com uma dona de casa que gostava de tarefas domésticas e manteria a casa em perfeita ordem, com cinco belos filhos jogadores de futebol americano, mas então provavelmente sonharia em ter um trabalho divertido em um escritório e em morar em um subúrbio moderno e descolado perto do porto com uma violoncelista e duas menininhas lindas, muito obrigada.” (MORIARTY, 2017, p. 172)

Depois da ótima experiência que tive com “Pequenas Grandes Mentiras”, confiei em Liane Moriarty para entregar mais um ótimo livro, porém não nego que tinha uma desconfiança. Acredito que Liane seja o tipo de autora competente cujo qualquer primeiro livro que o leitor pegue renderá uma boa leitura. Mas me perguntava se o mesmo acontecia com os livros seguintes, já que suas premissas e estruturas narrativas sempre se parecem muito (flashbacks + flashfowards + núcleos familiares). “Até que a culpa nos separe” foi uma boa leitura, mas não se equiparou a minha primeira experiência.

Quando o dia começou, era para Erika e seu marido, Oliver, receberem Clementine (amiga de infância de Erika) e o marido desta, Sam, para um almoço em sua casa. Porém, um convite inesperado de Vid, vizinho de Erika, leva o quarteto para um churrasco. Deveria ser apenas uma tarde comum, mas um acontecimento traumático vai mudar os relacionamentos entre eles.

A narrativa, sempre em terceira pessoa, sempre de ritmo fluido, intercala as visões de todos os personagens nos dando um panorama amplo do que aconteceu no churrasco e de como todos se sentem sobre isso. Nenhum personagem assume a posição de protagonista porque o que está em foco são os relacionamentos entre todos eles. A narrativa alterna ainda entre o presente e o dia do churrasco, dando aos poucos pistas para o leitor deduzir o que aconteceu. Durante um tempo confesso que isso me incomodou um pouco. Como comentei, esse ir e vir é, basicamente, a mesma estrutura de “Pequenas Grandes Mentiras”, porém em “Até que a culpa nos separe” não soa tão natural, parecendo que a autora esconde o jogo propositalmente, interrompendo a narrativa nos pontos cruciais apenas para não dar para o leitor a informação antes do tempo. Mas isso não chega a estragar a experiência porque a Liane não mantém o mistério do dia do churrasco por muito tempo.

Até a revelação, o leitor se pergunta o que aconteceu que fez com que Erika, Oliver, Sam, Clementine (e, em menor grau, Vid e Tiffany – os anfitriões) ficassem tão abalados. Por que agora todos parecem pisar em ovos uns com os outros? Por que agora Clementine, uma violoncelista, dá palestras para a comunidade? Passado o suspense, o foco se vira para as consequências e é nisso que Liane acerta: seu livro não é sobre o que aconteceu no churrasco e sim sobre o impacto disso na vida de seus personagens. O acontecimento em si (que, aliás, não foi uma surpresa para mim) é simples quando as peças se encaixam, mas sua repercussão é intensa.

O que torna as histórias de Liane cativantes é justamente o cotidiano. São pequenas coisas que podem se transformar em algo imenso quando acumuladas ou quando uma situação propícia a catástrofes se configura. No caso de “Até que a culpa nos separe” a pergunta “Quem você realmente é diante de uma situação extrema?” é o cerne da trama e é muito bem explorada pela autora.

Outra coisa que é bem explorada são os personagens. Os sentimentos que eles têm uns pelos outros não são preto no branco. Duas pessoas podem ser amigas e se irritar uma com a outra com frequência. Um casamento pode ser forte, mas também pode passar por momentos de abalo. As certezas diante das decisões não precisam ser definitivas. São todas situações com as quais o leitor consegue se conectar e o aproximam da trama.

Não é por se tratar de livros da mesma autora que comparo e sim porque um livro lembra o outro. “Até que a culpa nos separe” não é tão intrigante nem tem relações tão complexas como as de “Pequenas Grandes Mentiras”, mas apresenta uma trama talvez ainda mais verossímil, brinca com detalhes que parecem insignificantes para depois mostrar que eles estão conectados a algo importante e, o fundamental, mantem seu leitor envolvido do início ao fim.

Título: Até que a culpa nos separe
Autora: Liane Moriarty
N° de páginas: 464
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O que vem por aí?

 

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