terça-feira, 1 de abril de 2014

Conversa de Contracapa # 07

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Depois do Slow Movement, do Slow Food e até mesmo do Slow Journalism, surge no horizonte outra tendência de desaceleração, o Slow Reading. Danilo Venticinque, editor de livros da Revista Época, discorreu sobre dez motivos para ler mais devagar. A instigante reportagem me deixou com vontade de participar do debate e discutir algo que influencia diretamente a vida de qualquer leitor.

Se você se identifica como um leitor assíduo, é provável que seu ano tenha iniciado com uma meta literária. Das mais modestas as mais desafiantes, este grupo geralmente estabelece um número mínimo de leituras que deverão ser realizadas ao longo do ano. Mas nessa ânsia de completar a meta, será que a obrigação não ganha espaço em detrimento do prazer?

Sempre defendi a tese de que leitura deve ser sinônimo de prazer e entretenimento, e se assim não for, há algo de errado ou com o leitor ou com a obra. Porém, nos últimos tempos, notei que o modo que fazemos a leitura também pode “estar errado”. Já não aconteceu com você de ficar tão ansioso para encerrar a leitura e partir para a próximo, que seu envolvimento com a obra foi superficial? E não é por causa desta sensação que evitamos livros grandes e/ou complexos?

Exemplifico: o terceiro volume da saga As Crônicas de Gelo e Fogo permaneceu intocado na minha estante por dois anos, pois eu não tinha coragem de iniciar um livro que demandaria, pelo menos, duas semanas. Quando finalmente iniciei a leitura, demorei para me livrar da incômoda impressão de que naquele tempo seria possível ler, no mínimo, três livros de “tamanho normal”. Mas a consciência pesada não se deixou vencer tão facilmente, visto que, em um livro com tantas páginas, o marcador parecia ficar sempre no mesmo lugar. E enquanto o marcador não andava, a lista de livros a serem lidos crescia.

Consegui apreciar verdadeiramente a leitura apenas da metade para o final, e isto me fez perceber como uma atividade que deveria ser de lazer apresentou contornos de obrigação. Talvez a cultura da sociedade fast tenha se infiltrado em nossos hábitos de leitura ou quem sabe a ideia de que “a vida é curta, preciso ler mais rápido” esteja atormentando o momento sagrado em que mergulhamos nas páginas do livro.

Como já disse, sustento que o ato de ler deve ser agradável e para isso o leitor deve ler aquilo que gosta, seja romance, policial, drama, suspense, fantasia, clássicos, e até mesmo histórias em quadrinhos. Agora, creio que não basta ler apenas o que o se gosta, mas ler com tempo e sem culpa, caso contrário o prazer se esvai. O famoso ditado “a pressa é inimiga da perfeição” poderia muito bem ser adaptado para “a pressa é inimiga de uma boa leitura”.

Deixarei de ter uma meta? Não. Mas não irei levá-la tão a sério. De que adianta alcançar a meta, mas não conseguir extrair do livro tudo o que o autor tinha a oferecer? Fazer uma leitura assombrada pelo desejo de encerrá-la rapidamente e pela culpa não é um desperdício? E será que vale a pena desistir de obras maiores ou mais complexas, apenas para completar o objetivo?

Se ao final do ano minha lista de livros lidos apresentar nomes como Stephen King, John Green, Agatha Christie, Jane Austen, Gillian Flynn, Matthew Quick, Bernard Cornwell, Jo Nesbo, Alessandro D’avenia e Shakespeare, me dou por satisfeito.

Encerro reconhecendo que a reportagem de Venticinque é mais ampla do que esta breve reflexão, apresentando inúmeros benefícios do Slow Reading.



7 comentários:

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Coincidentemente (ou não) li essa reportagem há uns dois dias, e posso dizer que ele me fez parar de sentir culpa por não conseguir ler mais rápido. Nunca faço metas a respeito de nada pois nunca consigo cumpri-las, e a leitura pra mim sempre foi um momento de prazer. Então esse artigo era tudo que eu precisava.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Paula Souza disse...

Bernard Cornwell <3
Meu autor preferido! Quero ler todos os livros desse homem!

Mas voltando ao papo da conversa, isso realmente acontece as vezes.
Por exemplo, eu queria muito ler O temor do sábio, mas o livro tem quase 1000 páginas... e tem os livros de parceria. Mas aí tem outra questão, todos os livros que escolho para ler são realmente desejados. Realmente me interessam, então a leitura continua muito agradável sabe?
Entrando no clima George Martin, eu não sofri com isso em Tormenta de Espadas, na verdade quando comecei a ler fiquei tão apaixonada pela história que não consegui largar... Ah! É verdade, li rápido demais. Mas acho que extraí muito do livro, é fato que é impossível absorver tudo dos livros do Martin com uma leitura só, mas acho que foi bastante satisfatório. Não foi rápido para terminar logo, foi rápido porque estava bom demais! Já festim dos corvozZzzzZzz. Não peguei Dança dos Dragões até hoje de tão traumatizada que fiquei com o tédio que senti.


Adorei essa postagem, Alê!
Acho que até falei demais hahahaha

Beijinhos
http://www.interacaoliteraria.com/

Poison Girl disse...

Eu não tenho uma meta, eu apenas vou add os livro que vou ganhando ou comprando, na meta do skoob para eu ter uma noção das opções que tenho e de quantos faltam para eu terminar de ler todos os que tenho aqui em casa não lidos. Quanto aos desafios literários, eu os uso para ter uma forma de determinar quais livros vou ler naquele ano, normalmente coloco os que tenha há mais tempo na frente.

Blog: http://worldbehindmywall.fanzoom.net/
Twitter: https://twitter.com/Blog_WBMW

Laura Zardo disse...

Eu leio puramente por prazer, para ampliar meu conhecimento e me divertir, às vezes demoro semanas para terminar um livro de poucas páginas pelo simples fato de que eu entro na história, eu vivo ela, eu mergulho de cabeça e quanto mais tempo eu levar para sair dela melhor. Eu gosto disso, dessa vida paralela, de abrir um livro e saber que ali você vai encontrar uma nova dimensão. CLARO, que não sou nenhuma lunática (quase, kk), eu não saio por aí agindo como personagens de livros, eu sei separar os dois, mas o que eu quero dizer é que não importa o tempo de leitura quando um livro é bom, não importa a pilha de outros que estão esperando para ser lidos, quando é um livro é um livro e ponto, não tem essa de ficar pensando no próximo e estragar o atual, e acho sinceramente que não existe nada pior na literatura do isso, a pressa. Livros foram feitos para serem degustados, apreciados, com tempo, com calma e principalmente com a alma. ;)

thaila oliveira disse...

eu gosto de ler com calma primeiro por causa da rotina atribulada, em seguida gosto pois posso refletir e me envolver
http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

Nardonio disse...

Tenho um ritmo de leitura um pouco mais devagar do que muitos outros leitores por aí. Sempre fiquei incomodado com isso e me cobrava agilidade na hora de ler. Nunca cheguei a pensar sobre esses questionamentos que foram levantados tanto na reportagem, como nesse post. Achei bem interessante, e fiquei com a consciência um pouco mais tranquila em relação a isso. Vou tentar relaxar e aproveitar mais.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Lais Cavalcante disse...

Acho que você resumiu o que eu penso por ler por obrigação. Sabe, aquelas pessoas que lêem 10 livros por mês, me questionou se realmente leu por prazer ou foi só para cumprir uma meta imposta? É de parar e pensar. Eu concordo perfeitamente a ideia de ler por prazer e não por obrigação. Afinal, número de livros não indica a qualidade da leitura.

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