quinta-feira, 14 de maio de 2015

Conversa de Contracapa # 17

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Cada vez mais gosto de livros com finais em aberto. A meu ver, ler é uma tarefa eminentemente interativa: o autor descreve personagens, lugares, situações e cabe ao leitor a função de imaginar. Ou seja, trata-se de um “trabalho em equipe” e, sendo assim, por que o autor teria direito a dar a última palavra sobre o desfecho da obra?

Sempre devemos ter em mente que um livro é o retrato de determinado período de tempo na vida de um ou mais personagens. O fato daquele momento, situação ou evento ter chegado ao fim não quer dizer que seja o fim daqueles personagens: a vida sempre continua, mesmo que não seja digna de um novo romance.

Se o autor compõe um final fechado, em que o destino de todos os personagens é traçado e que todas as perguntas que poderiam surgir na mente do leitor são respondidas, qual é a graça que resta? Se ler é um exercício de imaginação, imaginar o que acontece após os eventos narrados é a cereja do bolo.

Grandes Esperanças originalmente recebeu um desfecho que não agradou a um amigo de Dickens, que o reputou “decepcionante”. A solução do escritor foi compor um final ambíguo, deixando a cargo do leitor interpretar o que de fato aconteceu. E a verdade é que o autor tinha tanto domínio sobre a trama e os personagens que qualquer final que o leitor imagine será verossímil.

Por outro lado, J.K. Rowling optou por encerrar a saga Harry Potter com um epílogo, no qual vemos o que aconteceu com os principais personagens dezenove anos após a Batalha de Hogwarts. Quando li o livro pela primeira vez, gostei do desfecho. Acho que, como todo fã da série, morria de curiosidade para saber o que iria acontecer com personagens tão queridos. Entretanto, hoje penso que o melhor me foi tirado. É provável que eu não conhecesse aqueles personagens tão bem quanto a autora, mas certamente os conhecia bem o suficiente para imaginar o que seria da vida deles depois daquele momento.

Um dos motivos que me torna um fã ardoroso de John Green é o fato de que o autor se recusa a fazer finais fechados. O último capítulo do livro nunca é o capítulo final na vida daqueles personagens, mesmo que aquele episódio em si ganhe um desfecho. O autor responde às perguntas principais, mas sempre deixa no ar um ou outro elemento que irá manter o leitor em um estado de reflexão.

Certa vez ouvi alguém dizer que “a ficção exige uma lógica que a vida, muitas vezes, não exige”. Creio que tal afirmativa é verdadeira até certo ponto. O problema é que finais fechados exigem muitas explicações, pois absolutamente tudo tem que ter um motivo. Porém, na vida real, as coisas simplesmente acontecem, e se dizemos que acontecem por um motivo, é apenas por que o ser humano é naturalmente otimista e procura ver o lado bom. Na maior parte das vezes a vida é aleatória e até mesmo caótica, então, se a arte imita a vida, não seria interessante ver um pouco menos de lógica na literatura?

Mas, fique claro, não defendo finais abertos a qualquer custo. Livros policiais, por exemplo, geralmente precisam de um desfecho mais coeso, visto que o cerne da obra reside nas respostas do crime, como a identidade do assassino ou sua motivação. Ou seja, neste caso explicações são necessárias e a ausência delas pode tornar a leitura frustrante, por melhor que seja o livro (como foi o caso de O Poeta). Assim, cada caso é um caso e a grande tarefa do autor é encontrar um ponto de equilíbrio entre dar as respostas que o leitor quer, mas também permiti-lo explorar esse novo mundo, mesmo depois de encerrada a leitura.

O fato é que não são todos os autores que têm a coragem e a ousadia de não colocar todos os pingos nos is, pois sempre haverá alguém para criticar, alegando incompetência em criar uma trama coesa. A verdade é que temos nos tornado leitores passivos, que não sabem apreciar uma estória a menos que ela tenha um início, meio e fim completamente determinados. Então, da próxima vez que você ler um livro, tenha em mente que se trata de um “trabalho em equipe” e se o final for aberto, não refugue a cereja do bolo. A vida sempre continua e cabe a nós imaginá-la.


19 comentários:

Helena Cintra disse...

Adorei o seu texto e confesso que me fez pensar.
Costumo detestar livros com finais abertos rsrs para mim, parece que minha experiência de leitura ficou incompleta, porque apesar de imaginar o que poderia ter sido, quero saber o que realmente aconteceu (se é que isso faz sentido), me sinto tão próxima de alguns personagens que me sinto no direito de saber detalhes presentes e futuros de suas decisões e de suas vidas. Ainda assim, seus argumentos foram muito bons, vou tentar aceitar melhor esses finais rsrs
Abs!
Helena

http://doslivrosumpouco.wordpress.com

Juliara Vasconcelos disse...

Gostei muito dessa sua análise. Parando para pensar um pouco, creio que concordo com você, principalmente por eu ter uma imaginação bem fértil e imaginar coisas além do que estou lendo.

Zona de Conspiração | Facebook da Zona

Gabriela CZ disse...

Gostar de finais abertos foi algo que tive que aprender, Alê. Na infância eu os odiava pelo simples fato de que toda história precisava ter início, meio e fim e ponto. Mas conforme fui crescendo passei a entender que a construção de uma boa história se dá na parceria entre autor e leitor. Na trilogia Mundo de Tinta, Cornelia Funke menciona que nenhum livro começa na primeira frase e nem termina na última. Isso representa bem o que você mencionou sobre um romance retratar determinado período na vida daqueles personagens. Enfim, ótimo texto.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Ju Goulart disse...

Alê, adorei seu texto. Concordo com você que, em muitos livros, os finais abertos é o que os torna maravilhosos. Em outros casos, é frustrante não ter as respostas, que são tão essenciais. Acho que depende muito do percurso que o livro percorreu para chegar ao final que, em alguns casos, precisa ser delimitados e, em outros, o subentendido mais convém.

Beijos

Katrine Bernardo disse...

Adorei o texto e a coluna, sério!!!
Beijos.
http://www.garotadolivro.com/

Sil disse...

Eu não sei qual final prefiro. Acho que depende muito do gênero que estiver lendo. Tem alguns livros que adorei o final aberto, mas tem outros que eu gostaria de ter ficado imaginado o "meu" final.

Blog Prefácio

Luis Carlos disse...

Eu, assim como você, também adoro livros com finais abertos, fazendo com que o leitor imagine o que irá acontecer com os personagens. Mas, para isso, o livro tem que ser, no mínimo, bem escrito!

Guilherme disse...

Oi!
Esse é uma coisa que acho que vai muito de cada leitor e de cada livro. As vezes fica legal deixar um final aberto mas as vezes tem livros que é melhor ter um final bem amarrado.
Enfim, adorei o texto!
Abraço,
Leitura Fora De Série

Caverna Literária disse...

Seu post ficou ótimo, super bem elaborado, além de verdadeiro. Também acho que o autor não é obrigado a montar um desfecho, até porque os livros servem pra nos fazer sonhar, nos transportar para outro mundo, e o autor já teve o trabalho de traçar todo o caminho até ali, porque não aproveitarmos essa abertura do final pra imaginar, pra dar o que achamos que caberia melhor? Alguns livros eu concordo que o mais certo é ter um final concreto, por ser mais complexo, mas outros nós podemos considerar esse final aberto uma chance inclusive de sermos autores também ao menos uma vez.

xx Carol
http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
Tem tag no blog, vem conferir!

DominO Simmons disse...

oie Ale tudo bene... espero que sim...
tbm concordo com vc...
finais fechados as vezes nops retiram o melhor da leitura e nos deixam sabendo de tudo tintin por tintin... e isso perde a graça... bem mesmo fazia Jane Austen ao só nos falar que eles forma felizes... e assim deixar-nos imaginando como foi o dia a dia de cada personagem ao longo de suas vidas!
Beijos normes e adorei o post :) http://cantodadomino.blogspot.com.br/

Carol Cristina disse...

Texto super legal e concordo com vc!
Os finais do John Green são tão <3 Amo esse homem! Mas gostei tbm do final de HP.
No ínicio vc fica revoltado, mas pensando bem são os melhores finais! kkk
Bjs
http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

Bárbara Carollo disse...

Olá,
Seu texto ficou ótimo e concordo com você. Cada vez tenho gostado mais desses finais que nos fazem pensar. O John Green realmente faz isso nos seus livros e acho que fica bom!
Parabéns pelo post!!
Um abraço,

http://versosenotas.blogspot.com.br/

Maisanara F. disse...

Oi, pensando por esse lado é verdade. Sempre com leio livros que não tem um final concreto fico imaginando vários finais. Bjus.

Mariana Ogawa disse...

eu acho que finais aberto e fechados principalmente depende do tipo de histórias.
as vezes quando eu termino de ler um livro que tem final aberto eu fico meio irritada, mas depois quando eu vou refletir eu penso: é para terminar esse livro só se o autor matar o povo.
algumas vezes até daria um final aberto (como o caso do HP) mas acho que o autor optar por fazer um epilogo para ninguém (muita gente na verdade) perguntar: e o que aconteceu com o povo ?
outras vezes a história tem que ter um fim, eu vejo isso acontecer muito em séries de tv e de livros, quando eu vejo que vai ser lançado mais um/uma livro/temporada eu penso gente deu! acabou! a história precisa acabar....
mas enfim, concordo quando vc dizer que depende do estilo de livro

Nadja disse...

Oi! Gostei muito do texto. Já amei livros com finais abertos e também com finais já decretados como também já detestei. No meu caso, depende o livro, da história e dos personagens, muitas vezes é praticamente obrigatório um final decisivo (em partes) na história, mas a lógica é que os personagens vivam como se fossem reais mesmo depois da última palavra do autor, então nunca é um final exatamente. Admirei muitos livros que o final ficou nas mãos do leitor, mas o autor tem que fazer isso com maestria , quase como uma situação poética, assim ele me conquistará. Amei o texto.

Nardonio disse...

Confesso que tenho problemas seríssimos com finais em aberto. Entendo que, em alguns casos, esses finais dão um ar de continuidade na vida das personagens, mas fico com a sensação de incompletude. Sempre fico imaginando que, mais cedo ou mais tarde, o autor irá retomar aquela trama a qual já tinha esquecido. Quero ter a certeza de um ponto final, para partir para outra coisa. Como você disse, geralmente não temos total domínio de tudo o que acontece na nossa vida, então queria ter essa certeza/domínio ao ler algo. Ficou um pouco confuso, mas tentei passar a minha impressão sobre. Enfim, não sou completamente contra finais em aberto, mas, se possível, sempre prefiro os fechadinhos.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

RUDYNALVA disse...

Alê!
Sou adepta dos finais abertos porque estimulam nossa imaginação e assim podemos dar o final, ou imaginar o final que nós queremos...
E como falou, alguns estilos exigem mesmo um desfecho, embora muitas vezes não seja aquele que nós queremos, e aí, uma vez mais, temos de adaptar nossa mente para a intenção do autor em determinado final.
Acredito que por isso cada um de nós tenha uma interpretação diferente ou um entendimento diferenciado.
Achei ótima suas colocações.
Cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

Ana I. J. Mercury disse...

Amei seu ponto de vista e opinião.
Concordo em partes. COmo o John Green, vc fica satisfeito com o livro e com outros autores também.
O que sou contra é esse autores que não deixam um final aberto, deixam um final VAGO, vc simplesmente se perde, não entende nem bem como foi chegar àquele ponto e o porque de aquilo ter acontecido, sem explicações e sem tem o personagem definido quando ao seu ponto na história.
É como se o personagem pairasse sob o livro, e não, fizesse parte dele.
Esse tipo de finais sou contra, agora os que excitam nossa imaginação, não ;)
bjokas

Anelise santana disse...

Eu aprendi a gostar de finais abertos quando conheci o John Green, e finais assim é algo que ele faz muito bem. Não acho que "Quem é Você, Alasca?" seja o melhor livro do autor, mas eu particularmente gosto muito justamente pelos vários possíveis finais que o autor propôs para um certo personagem. Fiz a leitura do livro no ano passado e até hoje penso nessa questão da estória.

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