segunda-feira, 13 de março de 2017

RESENHA: O Livro dos Baltimore

“Tudo começa como termina, e os livros costumam começar pelo fim. Não sei se o livro da nossa juventude se encerra no momento em que nos formamos no colégio ou exatamente um ano antes, no final de julho de 1997, quando aquelas férias de verão nos Hamptons acabaram depois de testemunharem a amizade selada e as promessas de fidelidade que havíamos feito irem pelos ares, não resistindo aos adultos que nos tornaríamos.” (DICKER, 2017, p. 216)

Joël Dicker me conquistou completamente com “A Verdade sobre o caso Harry Quebert”, tanto que guardo esta leitura como uma das mais especiais e marcantes que fiz nos últimos anos. Por isso, não é difícil imaginar o tamanho da minha expectativa para “O Livro dos Baltimore”, primeiro livro escrito pelo autor depois do sucesso de “Harry Quebert”.

Marcus Goldman cresceu admirando os tios bem sucedidos e vivendo momentos inesquecíveis ao lado de seus primos, Hillel e Woody, com quem formava a “Gangue dos Goldman”: um trio inseparável e indestrutível. Divididas em “Os Goldman-de-Montclair” e “Os Goldman de Baltimore”, as famílias apresentavam diferenças expressivas - enquanto os Montclair tinham uma vida de classe média, os Baltimore viviam em uma luxuosa mansão em um bairro rico – mas isso nunca interferiu na amizade dos meninos. Porém, tudo mudou depois do Drama. Oito anos depois do episódio fatídico, Marcus, agora um escritor de sucesso, procura preencher as lacunas do que aconteceu e escrever seu novo livro, tudo isso enquanto lida com o reencontro de Alexandra, uma antiga paixão.

Quando nos deparamos com um bom livro, é comum dizermos que os personagens são bem construídos, carismáticos e verossímeis, que a narrativa do autor é fluida, que mal conseguimos parar de ler depois que começamos e que as tramas são inteligentes, bem amarradas e surpreendentes. Mas não é sempre que podemos dizer todas essas coisas de um mesmo livro e, mesmo quando podemos, é raro ainda ficarmos com a sensação de: “Mas não é só isso. Esse livro é muito mais”. Pois com Joël Dicker é assim: seus livros são muito mais.

É difícil resenhar “O Livro dos Baltimore” porque, não importa o quanto eu fale, serei incapaz de traduzir porquê ele está além de ser apenas mais um drama familiar, embora seja exatamente isso. Não são os acontecimentos e sim a maneira como o autor os desenrola, nos fazendo sentir como parte daquela família, como se vivêssemos tudo ao lado deles. Conhecemos os personagens a fundo, mas a cada página descobrimos que há mais para saber. Há sempre um evento que vimos por apenas uma perspectiva, algo que não nos foi totalmente revelado, a bagagem que os personagens carregam, as aparências que querem manter. Tudo contribui para que a teia se feche cada vez mais e eventos, aparentemente, simples se tornem complexos. Esse é o trunfo de Dicker: saber aproveitar a complexidade das relações familiares. Por isso, mesmo que a premissa seja simples, a trama está longe de ser porque com famílias nada nunca é simples.

A linha temporal não é contínua. Por vezes estamos no presente, por vezes em um passado distante (antes do Drama), por vezes em um passado mais próximo (depois do Drama). O que nos conduz é sempre a narrativa de Marcus que ora nos conta sua própria história (fazendo o papel de narrador em primeira pessoa), ora foca na história de seus primos (soando como um narrador em terceira pessoa). Pode parecer confuso, mas não é. Tudo está ali ao mesmo tempo porque tudo faz parte da vida de Marcus e de quem ele se tornou. Ele apenas lembra ora de uma fase da vida, ora de outra, e também lida com o que acontece no momento presente.

Justamente por essa característica, os acontecimentos se desenrolam aos poucos e é impossível prever como tudo irá terminar. Temos pistas, fazemos suposições, mas a cada página surge um detalhe novo que irá compor o quebra-cabeça final que, quando montado, se revela como uma consequência natural, surpreendendo sim, mas também revelando a sua simplicidade por não forçar reviravoltas em nenhum momento.

Eu diria que “O Livro dos Baltimore” é um drama envolto em suspense. “O que é o Drama?” é uma pergunta que nos fazemos desde a primeira página, mas não lemos apenas para encontrar essa resposta e sim para saber o que aconteceu com aqueles personagens e o que fez com que se afastassem. Eu, inclusive, esquecia do Drama em diversos momentos até que Marcus voltava a tocar no assunto. Por isso, é importante reconhecer que esse não é um thriller (embora tenha características do gênero) porque, caso tenha em mente apenas a resolução do mistério, você vai achar que demora muito até chegar lá e talvez não consiga apreciar a maravilhosa jornada que se desenrola a sua frente.

Há personagens encantadores aqui (Woody é meu favorito) e mesmo seus clichês são bem explorados pelo autor, se dissolvendo no panorama geral. No contexto tudo se justifica: a paixão entre Marcus e Alexandra, a dependência que Woody e Hillel passam a ter um do outro e o amor de irmãos que surge entre eles (mesmo que aquele não seja de fato da família), a admiração de Marcus pelo tio Saul, os momentos de raiva, de ciúmes, de rivalidade são todas coisas que brotam com naturalidade. Aliás, por mais que Marcus assuma o papel de protagonista (afinal, é da posição dele que conhecemos a história) a verdadeira protagonista é a família Goldman e o relacionamento entre seus membros, mesmo que em alguns momentos acreditemos que a história gire mais em torno de um ou de outro personagem.

Para aqueles que leram “Harry Quebert”, Marcus Goldman é um velho amigo, já que o personagem é o protagonista de ambos os livros. Mas isso é apenas um detalhe, pois as tramas são completamente independentes, não tendo nenhum cruzamento ou comentário que remeta àquele livro ou mesmo alguma consequência daquela trama nesta. A única coisa é que temos o mesmo Marcus Goldman: “o escritor”.

Aquele livro que conquista por completo, que você não quer parar de ler e, quando pára, não vê a hora de voltar para poder reencontrar aqueles personagens. Que depois da última página deixa você querendo falar muito sobre ele, mas sem saber o que dizer. Esse é “O Livro dos Baltimore” e com ele Joël Dicker me deixa mais uma vez me sentindo órfã. Já saudosa da mágica indefinível com a qual constrói seus livros e apaixona os seus leitores.

Título: O Livro dos Baltimore (exemplar cedido pela editora)
Autor: Joël Dicker
N° de páginas: 416
Editora: Intrínseca

20 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Mari!
Olha... eu fiquei bem curiosa sobre esse tal Drama. Apesar de me perder um pouco quando a linha é atemporal, sua resenha me convenceu a dar uma chance não só a esse livro, mas aos livros já lançados do autor.
Beijos
Balaio de Babados
Sorteio Literário de Carnaval
Sorteio Três Anos de Historiar

Marília Leocádio disse...

Fiquei meio perdida no meio da resenha e entendi pouca coisa, é a primeira resenha que leio sobre o livro, mas fiquei bem intrigada e quero saber mais a respeito.
Até mais!!!

Priscilla Frasnelli Rocha disse...

Oi Mari, tudo bem?
Curti muito a resenha, o livro parece muito instigante e envolvente.
Estou lendo Mentirosos, que também fala sobre um mistério referente a uma família, e acabei linkando sua resenha a esse livro - já que também vamos descobrindo mais sobre essa família aos poucos.
Beijos,

Priih
Infinitas Vidas

Gabriela CZ disse...

Nem pude tocar no meu A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert e já quero ler esse, Mari. Parece o tipo de história que realmente domina a gente. Preciso ler. Ótima resenha.

Beijos!

Maurilei Teodoro disse...

Depois de A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert ter sido minha melhor leitura do ano passado, me animei muito a ler este!!!

Naty Araújo disse...

Mari, li esse livro e já resenhei no Blog.
Eu fiquei exatamente assim... Como você!
Fiquei com a sensação de que nada que eu disse, nada do que você falou e nada do que falarão serão suficientes para expressar a grandiosidade dessa obra, o que senti ao ler. Eu chorei em cenas, ri em outras e meu coração ficou apertado durante toda a leitura.
Eu também esquecia do Drama e diversas vezes Marcus voltava para relembrar - é exatamente assim que isso aconteceu.
O desfecho foi muito chocante e me arrancou lágrimas, não poderia ser diferente.
Tenho os dois livros do autor e já preciso lê-los para ontem.
Como eu disse (e você também), a história é simples, mas o assunto tratado (família) foi de tamanha profundidade que nada consegue ser simples com a narrativa do autor.
Achei isso incrível!

http://www.revelandosentimentos.com.br

Somos Visíveis e Infinitos disse...

Oi, tudo bem??
Acho que já ouvi falar desse nome, mas não me lembro... Parece ser muito bom, principalmente se é aquele tipo de livro que te prende do começo ao fim!
Beijos
www.somosvisiveiseinfinitos.com.br

Maurilei Teodoro disse...

Naty, leia o mais rápido possível a Verdade sobre o caso Harry Quebert, pois é magnífico !! Eu já vou adquirir o meu O livro dos Baltimore pra ontem !!!

RUDYNALVA disse...

Mari!
Gosto muito dos livros que retratam dramas familiares, porque em um momento ou outro, acabamos nos identificando ou com as personagens ou com as situações que vivem.
Gosto também quando podemos acompanhar o enredo em uma volta ao passado e retorno ao presente e o jito como foi escrito, com Marcus sendo o narrador em primeira ou terceira pessoa, é bem diferente e chama a atenção.
E curiosa como sou, gostaria de saber que tal Drama foi esse que aconteceu e separou a família...
“Ouse saber!(Sapere aude)” (Immanuel Kant)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

Tony Lucas disse...

Oi, Mari! Tudo bem? Eu tenho A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, mas nunca li. Contudo, tenho muita vontade de lê-lo. Acredito que vou curtir muito a escrita de Dicker e seus livros. Já tô curioso aqui pra saber qual é esse Drama que acontece na vida dos personagens desse livro rs

Abraço

http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

Giulianna Santicioli disse...

Não curto muito livros que são contados numa linha atemporal, quase sempre me perco no meio da história e não sei mais onde estou, mas fiquei curiosíssima para saber que drama é esse, mas o livro parece ser muito bom, se ele é realmente desses que nem falando dias sobre ele é possível dizer o quão bom ele é, então deve ser magnífico.
Beijos!

Marta Izabel disse...

Oi, Mari!!
Existe livros que realmente mexem com nossas emoções !! Não sei se leria a esse livro pois normalmente não tenho costume de fazer esse tipo de leitura. Mas sem dúvida fica a indicação!!
Beijoss

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Mari! Uma das coisas mais legais de passar aqui é me deparar com livros que eu achava que não teria vontade de ler e depois lendo a resenha de vcs eu mudo de ideia. Drama com suspense é uma mescla super interessante e adoro com os autores sabem trabalhar os clichês! Dica anotada!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Carolina Garcia disse...

Oi, Mari!!

Adorei sua resenha e estou muito curiosa para conferir esse livro agora. Você já tinha me deixado ansiosa pelo outro título do autor e agora eu tenho certeza que preciso ler os dois assim que possível!! Hahahaha

Bjs!

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

Girlene Viey disse...

Acho que Joël Dicker já me conquistou porque sabe que umas de suas obras de marcou de uma forma, já faz ele ganha ponto. Em relação essa obra, interessante como Marcus lida com drmas familiar.
Eu entendo como deve ser dificil resenha livro "bom demais" porque voce não encontra palavras certa para descrever a obra. Isso é natural, fiquei bastante curiosa com essa obra, porque você gostou bastante

Kemmy Oliveira disse...

Eu conhecia o outro livro do autor, mas só com esse que eu passei a prestar mais atenção a ele, pois os elogios que li sobre essa obra são incontáveis. O fato de haver esse mistério em torno do "drama" é instigante e acho que o diferencial é sempre a forma como o autor narra, o que parece ser feito de forma magistral aqui.
Adoro quando termino um livro e não consigo falar direito sobre ele, fico sem palavras... isso mostra o quanto ele realmente foi bom!

Jônatas Amaral disse...

Olá, eu não conheço o autor nem sua obra, mas fiquei curioso para conhecê-lo e entender. Fiquei uma questão... Posso ler este livro mesmo sem ter o livro anterior (pelo o que eu entendi essa é uma continuação)?
Gosto muito de dramas e suspense. Uma série que consegue fazer isso comigo é "O tempo e o vento" de Érico Veríssimo, apesar de ser bem distinto, consegue ter essa mesma união de uma história envolvente, com uma história não tão contínua e com suspense.

Jônatas Amaral
alma-critica.blogspot.com.br

Priscila Tavares disse...

Oi Mari, tudo bem?
Se eu já não conhecesse a história desse livro, pela sua sinceridade na resenha ao dizer que não importa o quanto você fale, não iria conseguir transmitir o que o livro de fato é, eu leria. Porque quando concluímos uma leitura e ela nos deixa com essa sensação, sem sombra de dúvida foi um livro e tanto.
Beijokas
Quanto Mais Livros Melhor

suzana cariri disse...

Oi!
Ainda não li nada do Joël Dicker, mas depois dessa resenha fiquei bem curiosa para poder conhecer a escrita dele, achei interessante essa historia principalmente por mesmo misturando varias linhas temporais ao longo da historia, não deixe o leitor confuso, me deixando bem curiosa para ler esse livro !!

Ana I. J. Mercury disse...

Quero muitoooooooo ler esse e o outro do Harry Quebert, amei as resenhas do primeiro, e agora lendo a sua sobre os Baltimore, deu pra ver que é um livro surpreendente!
Bem escrito e com uma história simples e ao mesmo tempo original e cativante.
Já quero.
bjsss

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