quarta-feira, 30 de agosto de 2017

RESENHA: Ninguém Nasce Herói

Ninguém Nasce Herói // Eric Novello
“É inegável que no Brasil o culto à ignorância nos levou a um fanatismo comparável apenas ao dos radicais islâmicos. O ódio, contudo, se fortaleceu inclusive nos países ditos desenvolvidos. [...]. Para resistir, nos abrigamos uns nos outros e tornamos esse afeto nosso escudo.” (NOVELLO, 2017, p. 227).

***

No futuro, o Brasil é governado por um fundamentalista religioso e a perseguição a grupos minoritários se tornou rotineira. Chuvisco, um jovem recém-formado, e seus amigos não sabem como reagir diante de tanta violência e opressão. Quando o governo anuncia o Pacto de Convivência, uma medida que decretava o fim das perseguições e o retorno da liberdade de expressão, os amigos começam a distribuir livros proibidos em praças. Porém, ao ver um garoto trans ser atacado por uma milícia, Chuvisco percebe que a intolerância é maior do que qualquer pacto. 

Ninguém Nasce Herói é narrado em primeira pessoa por Chuvisco, de modo que o leitor é colocado em contato direto com seus sentimentos e dúvidas, entendendo de onde surge sua vontade de lutar. A narrativa de Novello é bastante dinâmica e envolvente, sendo que por diversas vezes me obriguei a parar a leitura e ir dormir, mesmo desejando continuar. 

Chuvisco é um personagem interessante e repleto de conflitos. Revolucionário, mas pacifico e sonhador por natureza, se sente desconfortável com a ideia de pegar em armas para lutar. Sua sexualidade também é fonte de dúvidas e ansiedades, ainda mais por ter amigos bem resolvidos de todas as orientações sexuais. Além disso, suas crises de alucinação, denominadas de “catarses criativas”, turvam sua percepção do mundo, de modo que não sabe diferenciar o que é real. 

O pano de fundo do livro é assustador. Imaginar um Brasil onde não há liberdade de expressão e em que o preconceito contra minorias foi institucionalizado me deixou com o estômago embrulhado. Mas o mais assustador é que esse futuro não é tão improvável assim. Ondas de conservadorismo estão inundando diversos países e no Brasil há políticos extremistas que, se eleitos, nos conduzirão exatamente para este caminho. Assim, Ninguém Nasce Herói tem um importante papel de conscientização.

Novello também provoca o leitor a refletir sobre diversos temas, como a importância da laicidade do Estado, o respeito a todas as minorias e a necessidade de não se calar diante da injustiça. Mas a grande lição do livro é mostrar como são as relações de amizade que nos dão forças para lutar quando as circunstâncias nos dizem para desistir. 

Ao contrário de outros livros distópicos, o foco de Ninguém Nasce Herói não era a ascensão e queda de um governo tirânico, mas sim mostrar como a vida deste grupo de amigos é afetada pela ditadura. Ou seja, como nosso dia-a-dia pode mudar radicalmente, até mesmo nas pequenas coisas, pela supressão de direitos, pelo fato de um texto religioso ser mais importante que a Constituição. 

Encerro reconhecendo que alguns aspectos da trama poderiam ter sido um pouco mais explorados e aproveitados, enquanto outro receberam muita atenção, mesmo desempenhando uma função pequena na estória. Ainda assim, tais deslizes em nada desmerecem a estória. 

Ninguém Nasce Herói é uma leitura intensa que nos faz refletir sobre os rumos de nosso país e sobre o que a intolerância e o ódio podem causar. 

Título: Ninguém Nasce Herói
Autor: Eric Novello
N.º de páginas: 378
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

Comprar: Amazon - Saraiva - Submarino
Gostou da resenha? Então compre o livro pelos links acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

18 comentários:

Naiara Fidelis Da Silva disse...

Não conhecia o livro, porém adorei saber um pouquinho mais sobre ele.

Acho importante livros assim que tem como papel não somente de entreter o leitor, mas também conscientiza-lo sobre um determinado assunto.

Marta Izabel disse...

Oi, Alê!!
Que legal esse livro, essa é a primeira resenha que leio sobre esse livro e achei a estória bem interessante. Principalmente por trazer um Brasil distópico . Amei a indicação!!
Beijoss

Mi Tavares disse...

Alê, eu tava doida querendo que alguém fizesse uma resenha desse livro!
Gostei da sua resenha e também gostei do livro!
Beijos
5 O'clock Tea

Márcia Saltão disse...

Oi!
É a primeira resenha que leio desse livro e estava bem curiosa para saber como seria a história. Gostei muito, uma leitura inteligente e interessante. Gostaria de ler.
Ótima resenha. Obrigada pela indicação.
Beijos.

Nicole Longhi disse...

Já havia visto algo sobre o livro e o autor, e gostei muito de ser nacional.
Tem uma sinopse bem interessante, com assuntos bem atuais até e parece ser realmente um livro para se refletir.
Gostei do fato do personagem ter catarses criativas, creio que dá um toque à mais na trama.

beijinhos

Gabriela CZ disse...

Que boa surpresa, Alê. Só fiquei sabendo desse livro esses dias, através do Instagram de vocês, e não imaginava nada parecido. Achei a premissa bem interessante, e bom saber que o autor soube conduzir bem a trama. Caso contrario poderia ter gerado um livro enfadonho. Agora fiquei bastante curiosa para conferir. Ótima resenha.

Beijos!

Giulianna Santicioli disse...

Quero muito ler esse livro, ainda mais por se passar no Brasil e mostrar o futuro que nosso país pode vivenciar, achei bem legal a ideia do autor de ao invés de focar na ascensão e queda do governo, focar nas consequências que esse governo trás para nós e como as pessoas são obrigadas a viver em um governo desse gênero, enfim, esse livro parece ser muito bom para pararmos e tentar refletir sobre o futuro do Brasil.
Beijos!

Ana I. J. Mercury disse...

Oi Alê,
eu não conhecia o livro ainda, mas achei ao mesmo tempo assustador, imaginar um futuro assim; como também, muito conscientizador e preciso.
Parece trazer diversas e profundas reflexões.
Vou querer ler com certeza!
bjs

André dos Santos disse...

O Eric é um dos melhores autores e tradutores nacionais e estava com uma alta expectativa para esse livro, pela resenha pude perceber que todas elas serão atendidas.
Isso de não ficar apenas no governo e na luta para derrubar, mas valorizar os personagens e o que eles precisam fazer para terem um pouco de liberdade é um dos pontos fortes, dá medo por corrermos o risco de em breve isso acontecer, mas serve como um alerta que serve para abrir os olhos.

RUDYNALVA disse...

Alê!
Muito bom ver que o autor criou uma nova realidade para nosso país, que diga-se de passagem, não gostei nadinha, e a analogia com as crises que vivemos, torna o livro até crível, embora seja uma fantasia bem alucinatória, não é não?
Sempre bom conhecer um novo escritor nacional e que escreve com qualidade.
“Deus com Sua infinita Sabedoria, escondeu o Inferno no meio do Paraíso para que nós sempre estivéssemos atentos.” (Paulo Coelho)
Cheirinhos
Rudy
TOP COMENTARISTA DE AGOSTO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

Isabela Carvalho disse...

Oi Alê ;)
Infelizmente esse não faz muito meu tipo de livro, uma pena pois adorei a capa dele!
A premissa é interessante, mas acho que o livro não me prenderia sabe.
As vezes é importante sim ler livros assim mais sérios, acho que esse seria o único motivo que poderia me levar a dar uma chance ao livro
Mas obrigada pela indicação ;)
Bjos

Amanda Barreiro disse...

Oi Alê! Acho que o mais assustador em qualquer distopia é a possibilidade de vir a se tornar realidade. Realmente as coisas estão muito loucas hoje em dia e não é só por aqui, o que faz desse tipo de leitura mais importante ainda. Não conhecia esse livro, já vou procurar! Beijos!

Bruna Bento disse...

quero muito ler algo do Eric Novello! E quando vi esse livro sendo lançado, percebi que era por esse que queria começar.
Esse livro me lembra um pouco de Fahrenheit 451, que por sinal nao gostei mto quando li, entao tenho esperanças de que "Ninguem nasce heroi" supra minhas expectativas frustradas do outro livro haha
Acho mto relevante e necessário um livro desses em tempos como o que estamos vivendo. Espero muito que os assuntos tenham sido abordados de maneira sábia. Ansiosa!

Rissia Ribeiro disse...

Oi kk eu acho que pra uma trama que não foi tão bem desenvolvida assim o livro compensa com uma senhora história de reflexão para todos os leitores, eu na verdade não tinha a minima curiosidade de ler esse livro mas agora vejo que talvez seja bom dar uma chance a leitura.

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Alê!
Gente, de primeira eu nem sabia que esse livro era nacional.
Eu já li muitos elogios e esse cenário do Brasil não está muito longe de acontecer, infelizmente.
Beijos
Balaio de Babados
Participe do sorteio de aniversário do Balaio de Babados e O que tem na nossa estante

Carolina Garcia disse...

Oi, Alê!!!

Adorei sua resenha!
Eu já estava muito curiosa sobre esse livro por alguns comentários de amigas minhas que leram e piraram de medo do futuro do Brasil. Hahaha
Mas gostei de saber mais sobre a história e com certeza já está na minha lista de próximas leituras!! :D

Bjs

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

O Que Tem Na Nossa Estante disse...

Oi Alê, tudo bem? Que premissa diferente das distopias que geralmente vejo, achei bacana, que pena que nem tudo foi bem aproveitado, mas bateu curiosidade sobre a obra!

Bjs, Mi

O que tem na nossa estante

Sora Seishin disse...

Oi Alê!
Também acho que não estamos muito distantes desse futuro distópico... infelizmente.
Parece ser um livro muito bom, fiquei interessada.

Beijos,
Sora | Meu Jardim de Livros

Postar um comentário

 

Além da Contracapa Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger