quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Conversa de Contracapa #12: Entrevista com Raphael Montes

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Conhecida como “A Capital Nacional da Literatura” nossa cidade promove um evento mensal chamado Projeto Livro do Mês que “visa a consolidação do processo de formação de leitores”. Descobrimos que Raphael Montes, autor de “Dias Perfeitos”, era o convidado de setembro por acaso, pois vimos uma foto sua no Facebook, em frente à Universidade de Passo Fundo (UPF) e pensamos “Ué? Ele está aqui?”. 

Na mesma hora tivemos a ideia de entrevistá-lo para o blog, mas não sabíamos até quando Raphael ficaria na cidade ou mesmo se já não teria partido. Extremamente solícito, o autor respondeu quase imediatamente o nosso contato, aceitando nos receber na portaria do seu hotel.

Raphael chegou tranquilo e nos acompanhou ao shopping ao lado. Sugerimos tomar um café, mas o autor disse ter almoçado há pouco (eram três horas da tarde, então isso dá uma boa idéia do quão corrida a sua agenda estava). Uma das primeiras coisas que nos disse foi que queria conhecer uma livraria (infelizmente Passo Fundo deixa a desejar nesse quesito), mas estando no shopping fomos ao café para a nossa conversa e depois à livraria. No primeiro, entretidos, ninguém lembrou de beber nada, diga-se de passagem. No segundo, o autor procurou seu livro “Dias Perfeitos”. Não tendo encontrado, perguntou para uma atendente e revelou “Eu sou o autor”, arrancando risos e olhares. 

Fizemos questão de frisar, já de cara, que nenhum de nós era jornalista, portanto, era melhor que Raphael não esperasse uma entrevista e sim uma conversa sobre literatura policial. E foi exatamente isso que aconteceu. Embora tivéssemos uma lista de perguntas para nos guiar, quando a conversa começou, o papo simplesmente rolou sem as amarras das questões pré-determinadas. Ainda assim, Alê permaneceu atento às nossas anotações e de quando em quando dizia: “Já que estamos falando nisso, então quem sabe já perguntamos tal coisa, Mari?” e lá íamos nós. Entrevista que nada, era uma conversa entre três amantes de literatura policial. Entre os autores citados, Patricia Highsmith, Stephen King, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Raymond Chandler, Georges Simenon, Chuck Palahniuk (que exerce forte influência em seu próximo livro “Jantar”), e muitos elogios a Agatha Christie (queridinha de todos nós).

Uma das primeiras perguntas que fizemos a Raphael foi por que ele acredita haver tanto desprezo em relação à literatura policial. “Porque existe a triste noção de que a literatura policial é considerada sub-literatura por ser de entretenimento. A boa literatura policial não é só de entretenimento. Ela traz outras reflexões e situações e também tem recursos linguísticos e narrativos de forma que entretém e faz algo a mais.”, disse, salientando que existem os dois tipos de literatura policial - a boa e a ruim - e que é um erro desprezar uma pela outra. “É uma noção que nós, escritores policias, temos que mudar”.

Raphael aponta também que essa foi uma das coisas que chamou atenção para o seu nome no mercado editorial brasileiro, o fato de ser um autor jovem, que se vende como escritor policial e que ainda assim teve o livro de estréia vencedor de um prêmio e finalista de dois outros. “Como esse moleque, de 20 anos na época, conseguiu isso?

Raphael disse que seu interesse em escrever começou muito jovem. Aos 12 anos começou a gostar de ler (o primeiro livro que leu por prazer foi “Um Estudo em vermelho”, aventura de estréia de Sherlock Holmes) e o gosto pela escrita veio de maneira espontânea. Começou escrevendo contos no colégio que fizeram sucesso. “Sempre brinco dizendo que virei escritor pelo ego. Deu certo e eu falei ‘poxa, isso eu sei fazer’”. Recentemente, o autor publicou no blog da Companhia das Letras, seu primeiro conto, chamado "A Professora", a história e uma professora que leva uma arma para o colégio e mata os alunos. 

Formado em Direito, foi durante a faculdade que o autor escreveu seu segundo livro, em um processo que durou três anos. Após a graduação, Raphael dedicou-se a estudar para concursos públicos, porém, após o sucesso de vendas de “Dias Perfeitos”, largou os estudos para dedicar-se com exclusividade a vida de escritor

O autor compartilha a nossa opinião de que “O Caso dos Dez Negrinhos” é a maior representação da boa literatura policial. Por isso, quando perguntamos que livro ele gostaria de ter escrito ou que personagem gostaria de ter criado, esse foi o primeiro que lhe passou pela cabeça e revelou que seu primeiro livro, “Suicidas” é a uma homenagem a este clássico de Agatha Christie.

Para o autor, a tríade mais importante da literatura policial é formada por Agatha Christie, Patricia Highsmith e Ruth Rendell. O autor cita ainda “Um assassino entre nós” de Rendell como um dos melhores livros policiais já escritos. 

Raphael costuma dizer que sua intenção é surpreender o leitor, então pedimos que elegesse o livro mais surpreendente com o qual já se deparou. Sua escolha foi “A Espera de um Milagre”, de Stephen King, que Alê havia citado como sua leitura do momento. 

E por falar no mestre do terror, quando perguntamos de qual autor ele gostaria de receber o aval, Raphael respondeu, sem titubear “Stephen King. Se tem que ser vivo”. Mas como dissemos que valia vivo ou morto, escolheu Agatha Christie, embora depois tenha mudado de idéia e optado por Patricia Highsmith, acreditando que a segunda seria bem mais difícil de agradar do que a primeira, já que Agatha faz o tipo velhinha boazinha.

Já no campo cinematográfico, se pudesse escolher um diretor para adaptar um de seus livros, Raphael não pensou duas vezes: “Tarantino, ainda que eu também adore Woody Allen.”

Quando indagado sobre quais autores não-policiais que o influenciam, Raphael disse que lê mais literatura não-policial que policial, porém, não sabe dizer até que ponto esses autores que gosta o influenciam. Cita alguns - como Machado de Assis e Ítalo Calvino – e ressalta que, de qualquer forma, tudo é bagagem e que a influência do escritor não vem só da literatura, mas também do cinema, das séries e elementos do cotidiano.

Pedimos que o autor nos dissesse qual fora o melhor livro que havia lido nos últimos tempos e sua escolha foi um título de não-ficção “Longe da árvore”, de Andrew Soloman. Dentre os livros policiais, escolheu “Os Homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson, dizendo: “Foi o último livro policial que li em que deixei de ser escritor para ser apenas leitor.” Quanto a sua leitura do momento, contou que veio lendo no avião “O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues. Sobre o livro, falou: “Incrível. O cara é um gênio”.

Perguntamos também qual livro ele estava com muita vontade de ler, mas ainda não teve tempo, ao que respondeu: “A lista é grande.” Pedimos que escolhesse o que encabeçava a lista e depois de alguns momentos, Raphael elegeu o novo do Dennis Lehanne. “Gosto muito dele”, disse se referindo ao autor. Quando perguntamos se ele prefere a série detetivesca ou os livros avulsos do autor, foi da mesma opinião que nós: “Os avulsos”.

Não espanta que Raphael não esteja conseguindo ler todos os livros que pretende, visto que sua agenda estava lotadíssima. O autor havia chegado a Passo Fundo no dia anterior, desembarcado às 18 horas e era aguardado em um evento às 19 horas com os acadêmicos do Curso de Letras da UPF. No dia seguinte, quando o encontramos, Raphael teve um encontro com alunos de escolas públicas pela manhã e de tarde tinha programado um tour pela cidade, além de ter agendado uma entrevista para dar pelo telefone para um jornal de Santos. Vendo que, devido ao tempo apertado, nossa conversa chegaria ao fim, o autor nos propôs: “Vamos juntos que a gente continua a conversa no caminho”. E assim seguimos com ele pelos seus compromissos da tarde. 

Para o dia seguinte estava programado mais um evento com o autor, dessa vez com alunos do colégio militar e de escolas públicas. Nós estivemos lá e pudemos conferir o quão animados os adolescentes estavam em conhecer Raphael, sendo que a grande maioria havia lido “Dias Perfeitos” e tinham vários comentários para fazer a cerca do livro e curiosidade para sanar a respeito do seu autor. Bem-humorado, Raphael respondeu as perguntas e brincou diversas vezes com o engano frequente de que ele seria uma pessoa dark por escrever livros pesados, sendo que na verdade é muito “de bem com a vida”. Depois de um longo bate-papo (que incluiu a leitura de um trecho de seu próximo livro, ainda inédito) e mesmo com o horário apertado, o autor deu autógrafos e tirou fotos com os alunos.

Ao nos encontrar nesse evento, Raphael disse que havia lido a resenha de Alê sobre “Dias Perfeitos” e que concordava com alguns dos comentários, mas acrescentou em tom brincalhão: “Mas algumas coisas são bobagem.” Isso mostra o quão tranquilo e acessível é Raphael Montes, que no dia anterior havia nos perguntado se havíamos lido seu livro e revelado não ter problemas em receber críticas negativas.

O autor (que aos 24 anos já tem dois livros lançados, direitos de ambos vendidos para o cinema, além de projetos para a televisão e publicação em outros países) mostra que faz questão de estar em contato com seus leitores, que sabe claramente o impacto que quer que seus livros tenham – tanto para os leitores quanto na literatura nacional que ainda engatinha no gênero policial – que não tem receio de falar dos livros que lhe desagradam ou mesmo que os seus possam desagradar o leitores em alguns aspectos. 

Como a nossa conversa fugiu (no melhor sentido) da dinâmica perguntas-e-respostas, infelizmente não tivemos tempo de perguntar tudo o que programamos, mas gostamos muito de conhecer Raphael Montes e de ver que existe lugar na literatura brasileira para boas histórias policiais. 

Agradecemos ao autor por sua atenção e disponibilidade e desejamos muito sucesso nos (muitos) planos futuros.


18 comentários:

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Que entrevista maravilhosa! Alê e Mari, pelo visto foi mesmo uma ótima tarde de belas conversas. E o Raphael parece mesmo ser um cara bacana. Bela entrevista. :)

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Ana Paula disse...

esse cara é o maximo!

Milena Soares disse...

Excelente entrevista, o livro Dias Perfeitos é ótimo!

Kel Araujo disse...

Não tem como a Agatha não inspirar os autores policiais. Ela é a genia do crime. Li Dias Perfeitos do Rafael e gostei bastante, mas não concordei com o final que ele propôs.

beijos
Kel
www.porumaboaleitura.com.br

Desbravadores de Livros disse...

Adorei a quase entrevista, Alê e Mari. Como vocês disseram, foi mais um bate papo mesmo rs. Vocês literalmente seguiram o Raphael como se fossem repórteres por um dia haha.
A Agatha é uma fonte de inspiração, sem dúvidas. Ainda não li nenhuma obra de Patricia Highsmith, mas confesso que, pelos três falarem tanto dela e indicarem, fiquei curiosa pela leitura.

Isabelle Vitorino disse...

Que texto tão delicioso de ser lido! Adorei poder conhecer um pouco mais do Raphael. Só em ler as descrições de vocês, já comecei a sentir um carinho pelo autor. Espero ter oportunidade de ler algum livro dele em breve, bem como, as indicações de vocês (shame on me!, não li quase nenhum desses autores citados).
Parabéns Alê e Mari, vocês arrasaram.
Beijos,
Isabelle | http://www.mundodoslivros.com/

Loly Fonseca disse...

Que entrevista legal! O autor parece ser super gente boa e a conversa pareceu um bate papo entre amigos... Não conhecia o livro dele, mas já vou procurar conhecer e assim que der lerei... Legal vcs conseguirem ter contato com ele...
Kisses =*

RUDYNALVA disse...

Alê e Mari!
Interessante terem acompanhado o Raphael durante a breve estada na cidade e também a livraria que ele queria ir para ver se seu livro estava a venda por lá.
Sabe que gostei mais? a forma como relataram a entrevista, fugindo a convencional pergunta/resposta e trazendo um pouco do que sentiram e fazendo uma narrativa.
Se livro policial é considerado uma sub-leitura, acho que sou uma sub-leitora, porque é um dos estilos mais atraentes, acredito que nos coloca para raciocinar e tentar entender um pouco a mente do meliante.
Parabéns pela entrevista e para o autor, sucesso!
cheirinhos
Rudy

Ø Väzïø ñä Flø® disse...

Li o post inteiro , só pra no final me dar conta de que era uma entrevista!rs Super que fugiu do marasmo..do jogo entediante de perguntas..e oh..ah em respostas, as vezes, confusas.
Super simples ele e de um bom humor maravilhoso.rs
Amei a resenha de Dias Perfeitos(que fui correndo ler no blog) e procurarei o livro.
Novinho e com uma inteligência incomum.
Que venham mais =)
Beijo

Nardonio disse...

Sempre acho que essas entrevistas com tom de conversa são muito mais reveladoras. Os entrevistados ficam bem mais a vontade. O Raphael se mostrou bastante acessível, merece todo o sucesso.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Thállyta Silva disse...

Adorei a entrevista, ainda mais por fugir do padrão de perguntas e respostas.
Adorei saber um pouco mais sobre o Raphael, pelo que vi ele parece ser bem legal..
Apesar de não gostar muito do gênero policial, me deu bastante vontade de ler Dias Perfeitos, parece ser ótimo.

Girlene Viey disse...

Não conhecia o escritor Raphael Montes nem sua obra!
Pra ser sincera. Sua post de entrevista foi a oportunidade
de conhece-lo. Nem acredito que vc tem ortografo, meu sonho
e tem ortografo de algum escritor (a) .... Que sorte meu deus!

nathalia muller disse...

Adorei a entrevista...
Amei conhecer um pouquinho mais sobre o Raphael...
é sempre bom ver um jovem autor brasileiro se destacando no meio literário...

Tamires Fernanda disse...

Que cara legal, eu o achei o máximo. E ainda autografou seu livro.
A agenda dele deve ser bem apertada pra ele ter almoçado por volta das três da tarde... rsrsrsrs Muito legal o autor, pretendo conhecer mas as suas obras.

Abçs :)

Adriana disse...

Ha, muito legal!!! A gente que gosta de ler, adora saber um pouco mais sobre os autores, e o Raphael me pareceu um cara excelente! O bate papo foi bem animado pelo visto e assim ficamos sabendo um pouco mais dele, realmente Agatha e Stephen além de fonte de inspiração pra muitos autores são os melhores! Muito sucesso ao Raphael e parabéns a voces pela entrevista! Bjão!
Adriana

Jessica Lisboa disse...

Gostei do autor, quem não ama a Aghata?! Espero que o guri tenha muito sucesso.

Edna Dias disse...

Bacana este bate-papo. Eu não conhecia o autor, ao menos não lembro de ter lido ou ouvido falar nele antes.
Gosto muito da Agatha e nunca li Stephen, não por falta de interesse... hehe
Bacana ele ter citado Machado de Assis, prefiro Erico Veríssimo, mas tá valendo *-*
Adorei conhecer um pouco do Raphael e desejo muito sucesso a ele (y)

Parabéns pela entrevista, meninas. Bjs

Liza Mikaelly disse...

Cara! deu para perceber que o Rafael é muito simpático! já tinha lido outras entrevistas dele e em todas ele se mostrava muito legal. Ainda não tive a oportunidade de ler o seu livro mas já li ótimas resenhas sobre ele e tenho muita vontade de saber se é bom ou não. Beijos <3

Postar um comentário

 

Além da Contracapa Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger